Biográfico
O filme é um soco e o livro é um tiro
Postado por em 16 de outubro de 2010
Elite da Tropa 2
Luis Eduardo Soares, Cláudio Ferraz, André Batista e Rodrigo Pimentel

ISBN: 9788520924310
Editora: Nova Fronteira
Ano de publicação: 2010
Páginas: 304
Onde comprar:
SubmarinoSaraivaCultura

Quando fui ver Tropa de Elite I, fiquei grudado até o final, esperando que as melhores partes do livro fossem ressaltadas nas mais de uma hora de Capitão Nascimento: tiros, rajadas de metralhadoras, tortura, invasões, guerra. Tiro na água. Saí do cinema inconformado, querendo mais, sabendo que o assunto não estava esgotado. Muito pelo contrário, o grande argumento do livro Elite da Tropa, que originou o filme, não tinha sido bastante aprofundado. Em mesas de bar defendi que o filme não era tão bom quanto diziam, e, quando apertava a discussão e os fãs cegos e terroristas de opinião me atacavam de todos os lados – até relacionando eu ter estudado na PUC – mandava-os tomar danoninho, ver a sessão da tarde e aproveitar para ler o livro antes de qualquer comentário.

Fiquei nesse debate tolo durante algum tempo. E nesse algum tempo, fui lendo outros livros que aprofundassem a questão levantada pelo Elite da Tropa. E quer saber? Sempre se esbarra na política, não tem jeito. De clássicas biografias de gangsters italianos, americanos, russos, paraguaios ou chineses a grandes investigações da CSI, FBI ou KGB, a política é o ponto vital. Pois bem, quando foi anunciado o Tropa de Elite II, imaginei que abordaria esse tema. Não deu outra.

O filme é bárbaro, profundo, importante no diálogo e pra discussão, mas ainda assim indico ler o primeiro livro da Elite da Tropa e, principalmente, o segundo, que amplifica a explicação sobre a manutenção do tráfico, da influência de políticos, da necessidade da parceria com o poder público, entre tantos tópicos. O filme é um soco no estômago, o livro é um tiro.

Depois de sair do cinema, empolgado com as novas discussões em mesas de bar, peguei pra ler uma biografia antigona do Al Capone, impressa no Brasil em 1972. De tudo que li sobre a máfia, foi a que mais me impressionou. Sabe por quê? Simples: mostra que a estrutura é idêntica ao descrito no Elite da Tropa. Ou seja, a máfia muda de País, tem estatutos alterados pelas culturas, mas obedece a um esquema vitorioso e secular. O problema é que agora acho que o filme poderia ter ido mais fundo. Que venha o terceiro.

O Anão Enxadrista
Postado por em 8 de julho de 2010
A Máquina de Xadrez (Der Schachautomat)
Robert Löhr

ISBN: 9788501075307
Editora: Record
Ano de publicação: 2007
Páginas: 406
Classificação: 3/5
Onde comprar:
SubmarinoSaraivaCultura

Eu adoro Romances Biográficos. Mesmo que eles fujam um pouco do que realmente aconteceu, são sempre relatos mais ou menos precisos do tema em questão. Mas nem sempre se acreta em cheio.

A Máquina de Xadrez é um destes. É, sem dúvida alguma, uma história fantástica sobre um invento, e seu inventor – óbvio, que durante muitos anos intrigou a todos, sem que se descobrisse sua “farsa”. A farsa, na verdade, nem conta tanto, é como um truque de mágica.

No século XVIII, o barão Wolfgang von Kempelen encantou toda a Europa com “a máquina de xadrez”. Era um autômato vestido de turco, invencível diante de um tabuleiro de xadrez. O mistério persistiu até descobrirem que um anão, responsável pelas jogadas geniais, escondia-se dentro da máquina.

Vale dizer que o anão, Tibor Scandanelli, acaba se tornando o personagem principal. Cativante, intrigante, de uma fé cega. É um personagem fantástico. Mas é apenas um personagem fictício. O livro é muito bom, mas caiu no meu conceito quando eu descobri que o personagem principal nunca existiu.

Ora, é ficção. É óbvio que muitos personagens e fatos nunca existiram. Mas nesse livro, o personagem em questão é essencial. É quase impossível para mim, agora, dissociá-lo da história real da máquina. Este é o problema. O livro é muito bom como romance ficional, mas não tanto no contexto da Máquina de Xadrez.


Robert Löhr nasceu em Berlin, e cresceu em Bremen e Santa Barbara, California. Formou-se em jornalismo na Escola de Jornalismo de Berlim, e trabalhou nos jornais berlinenses Der Tagesspiegel, Berliner Zeitung e Taz.

A Máquina de Xadrez é o seu primeiro romance.

Alice Liddell e o País das Maravilhas
Postado por em 29 de abril de 2010
Quando falei aqui sobre Alice no País das Maravilhas, questionei sua complexidade e de como é difícil compreender a história por completo. Como já havia dito, o livro é muito bom. Faz uma crítica – através de uma visão infantil – do universo adulto e de seus modos aborrecidos e artificiais. Mas senti necessidade de procurar algo mais.

 

Encontrei algumas respostas no ótimo livro de Melanie Benjamin, Eu sou Alice. Trata-se de um romance baseado na biografia de Alice Liddell, a musa inspiradora de Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll) no livro que leva seu nome: Alice no País das Maravilhas.

 

O livro é narrado pela própria Alice e dividido em três fases: infância, adolescência/adulta e velhice. Acho que não preciso dizer que a primeira é a mais importante para entender a relação entre Alice e Dodgson. É de arrepiar a parte onde Dodgson conta a história que virá a se transformar no livro que conhecemos:
“Quem gostaria de ouvir uma história?” perguntou o Sr. Dodgson.[...]
“Eu! Eu!” Edith (irmã de alice) bateu palmas.[...]
“E você, Alice?” perguntou o Sr. Dodgson em voz baixa e gentil.
“Sim, por favor, conte-nos uma história”, pedi.
E ele contou.
“Era uma vez uma menina chamada Alice.” Foi assim que ele começou.
Preciso relembrar que o livro é apenas ficção, mas baseado na biografia de Alice Liddell, e que, de certa forma, nos proporciona um retrato da verdadeira Alice e de como sua amizade com Charles Dodgson inspirou o livro. Muitos dos fatos sobre a vida de Alice não são comprováveis, devido a falta de documentos – como o seu envolvimento com o príncipe Leopold, bastante explorado no romance.
Durante a maior parte de sua vida, Alice preferiu ficar à margem do sucesso do livro homônimo. Apenas no final de sua vida, quando precisou de dinheiro – após a morte de dois filhos na guerra e do marido, pouco tempo depois – e resolveu leiloar o manuscrito que o Charles Dodgson havia lhe dado é que resolveu assumir seu papel na criação do clássico.
Foto de Lewis Carroll / Dodgson (1858)
Essa opção se explica devido ao fato de a família de Alice ter rompido com o Sr. Dodgson pouco tempo depois da criação do livro. O fatos não são claros, mas Melanie procura se apoiar no que há disponível sobre Alice e Lewis Carroll e, como romancista, dá uma floreada em tudo.
A Menina Cigana, como ficou conhecida a foto de Alice tirada por Lewis Carroll, quando a menina tinha apenas sete anos (mesma idade da garotinha que caiu no buraco do coelho) mostra uma menina com olhos de mulher. A menina que inspirou o autor.
É exatamente essa fase da vida de Alice que é explorada na primeira parte do livro, e que nos revela o espírito captado por Carroll para criar sua grande obra.
O livro é realmente muito bom e uma excelente oportunidade para conhecer melhor a trágica e maravilhosa experiência da mulher que inspirou Lewis Carroll.


Nascida em Indianápolis, Indiana, Melanie Benjamin é uma leitora ávida desde criança e uma escritora que, por conta de sua paixão por histórias e biografias, direciona sua atenção para as “histórias por trás das histórias”.
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