Romance
Um Homem de Sorte, de Nicholas Sparks
Postado por em 24 de janeiro de 2012
Um Homem de Sorte (The Lucky One)
Nicholas Sparks

ISBN: 9788563219138
Editora: Novo Conceito
Tradutor: Marcely de Marco Martins Dantas
Ano de publicação: 2011
Páginas: 349
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Para quem nunca leu um livro de Nicholas Sparks, ele é apenas um autor de histórias de amor. Para mim, e acredito que para boa parte de seus leitores, ele vai muito além. Claro, há romance em todas as obras do autor. Geralmente são o centro da trama. Ainda assim, seus livros não são meros romances água com açúcar, como alguns julgam (geralmente quem não os leu). Sparks é drama puro. Mais que isso, seus livros são simplesmente sobre relacionamentos humanos, e o amor entre um homem e uma mulher é apenas uma das facetas que ele retrata no texto.

Assim foi com os seus romances mais conhecidos, Querido John e A Última Música. Ainda que tragam histórias de amor, estes livros trazem muitos outros conflitos que ultrapassam o óbvio ao gênero. Em ambas as tramas, Sparks reproduz problemas familiares que são um reflexo de muitas casas, e talvez esta seja a razão do sucesso de seus livros. Tanto em a A Última Música quanto em Querido John, os protagonistas enfrentam problemas com os pais enquanto estão em busca de si mesmos. Nada mais são que jovens procurando seu lugar no mundo. Com Um Homem de Sorte, último lançamento do autor no Brasil, não é diferente. O livro é tão bom quanto os citados anteriormente. Há romance transbordando das páginas, e ainda assim Sparks não transforma a obra em um simples livro de mulherzinha. Ele consegue facilmente segurar as pontas entre os gêneros e prender o leitor do começo ao fim, alternando as tramas paralelas e os conflitos que todos os personagens enfrentam, assim como a narrativa, dividida entre os três protagonistas. É um romance de primeira linha.

Claro, a trama de Um Homem de Sorte pode soar boba durante a leitura da sinopse. Um fuzileiro americano encontra a foto de uma mulher no chão em plena batalha durante a Guerra do Iraque. Ele procura o dono entre seus companheiros de pelotão, mas não encontra ninguém. Desta forma, passa a guardar a imagem junto a si, em sua carteira. A partir dai, acredita que ela vira um amuleto, protegendo-o em diversos momentos da guerra. Cinco anos depois, o tal fuzileiro, Logan, volta aos EUA. Ele atravessa o país para encontrar a mulher desconhecida da foto, acreditando que ela o salvara e está destinada a ele.

Sim, a trama parece boba a princípio. Entretanto, nas mãos do mestre Nicholas Sparks, ela funciona muito bem, como provavelmente não funcionaria com outro escritor. Sparks desenvolve todos os personagens desde o começo e é prazerosa a forma como tudo se desenrola conseqüentemente. A partir do momento que Logan finalmente encontra Beth, Sparks narra o dia-a-dia de seu novo trabalho junto a ela no canil da avó Nana, um retrato do cotidiano que o autor faz de forma interessante, algo que só ele consegue tão brilhantemente. Acompanhamos o relacionamento de Logan com o filho de Beth, Ben, a quem ele se apega muito fácil, e obviamente com a sua mãe. Então entra Clayton, o ex-marido e pai de Ben, que está incomodado com o homem estranho que se infiltrou na vida de sua antiga família. Sparks dá espaço ainda para os conflitos entre Ben, que não gosta de conviver com o pai, e o próprio Clayton, que resolve atrapalhar todos os novos relacionamentos que sua ex-mulher consegue. Já no final do livro, o autor pega o leitor de surpresa com uma cena final rápida, mas excelente, e ainda prega uma peça no epílogo, enganando direitinho. Tudo satisfatório. O único defeito do livro talvez seja a capa brega e sem graça que ele recebeu da Novo Conceito, o que não é nenhuma novidade, considerando o catálogo da editora. Deveriam ter reproduzido as capas americanas, que são bem melhores.

Sparks, mais uma vez, impressiona e faz um livro não só bom, mas prazeroso e brilhantemente simples de se ler. É Sparks, este é seu estilo. Um Homem de Sorte é um livro sobre família, conflitos e amor. Sobretudo, um livro destinado a leitores que querem uma trama pueril, bem desenvolvida e com bons personagens. Tem a cara do verão, uma ótima pedida para se ler na praia, com os pés na areia. O filme baseado na obra deve sair em abril e, de acordo com o trailer, parece ser fiel ao original. Vamos torcer para que a produção tenha o mesmo cuidado com a trama que o mestre Sparks teve em escrevê-la, e não repita o fisco do filme Querido John.

Bellissima, de Nora Roberts
Postado por em 2 de janeiro de 2012
Bellissima (Homeport)
Nora Roberts

ISBN: 9788528614404
Editora: Bertrand Brasil
Tradutor: Maria Clara Mattos
Ano de publicação: 2010
Páginas: 546
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$55,00
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Nora Roberts é aquele tipo de autora que toda mulher deve ler pelo menos uma vez na vida.

Suas histórias são sempre lindas, românticas, com homens perfeitos, mulheres mais perfeitas ainda, amores à primeira vista, sexo, etc, etc, etc. E tem o dom de fazer a gente ficar nas nuvens no final de cada livro. Não tem erro. Se você está:

  • Deprimida
  • Chateada
  • Feia
  • Solteira
  • Na seca

A melhor coisa que você pode fazer é sentar no sofá com um potão de pipoca (ou sorvete) e um livro da Nora Roberts. Eu garanto que você vai se levantar bem mais animada (e gorda, depois de tanta pipoca, mas isso a gente abafa).

A história milagrosa da vez é Belissima, que se passa entre a Itália – Florença, para ser mais exata – e o Maine. Aqui conhecemos a Dr. Miranda Jones, uma estudiosa de arte que costuma datar peças antigas encontradas por aí e verificar a sua procedência. Miranda, como todas as protagonistas da Nora, é perfeita fisicamente, mas cheia de neuras. Tem um péssimo relacionamento com os pais, inúmeras fobias sociais, que se fossem na vida real seriam impossíveis para uma mulher tão bonita, e dirige um instituto de arte no Maine com seu irmão, Andrew, que é lindo-maravilhoso-forte-alto-perfeito-gostoso-carente-e-alcoólatra.

No início da história Miranda é chamada por sua mãe-sargento para, em Florença, datar uma escultura que ela desconfia ser um Michelangelo. Miranda fica animadíssima com a perspectiva, mas, de uma hora para a outra, as coisas começam a dar errado e ela é afastada da estátua. Ela volta para o Maine, inconformada e conhece por acaso no Instituto o igualmente perfeito Ryan Boldari. Eles tem aquela “química Nora Roberts de atração fatal à primeira vista” e começam a sair juntos para se conhecerem melhor. O que Miranda nem desconfia é que Ryan é um ladrão de arte – não é spoiler! Ta na orelha do livro a informação – e que ela, vejam só, é o próximo alvo. Quando ela descobre isso, claro, a casa cai e o resto da história vocês podem imaginar.

Belissima é, de todos os livros da Nora que li, o que mais demorou pra me conquistar. Acho que isso se deve à Miranda ser meio mala no início e tal e toda aquela história com esculturas, pinturas, etc. Eu vivo falando pros meus amigos que, se eu pudesse escolher uma arte para salvar esta seria a Literatura, então dá pra imaginar a minha paciência com quadros e estátuas, né? Mas, quando eles param de falar dos incríveis traços de Michelangelo/Davi/Aleijadinho (brinks! Do Aleijadinho eles nem falam.. D=) e etc, o livro melhora 100%.

E ainda tem o romance paralelo básico protagonizado pelo Andrew que, mesmo bêbado, é uma graça. #Aiquevontadedelevarpracasa!

Enfim, leitura recomendadíssima, especialmente para quem se encontra em alguma das situações que citei no início da resenha. Nora Roberts é conto de fadas pra moças crescidas e nunca decepciona!

Star-Crossed, de Rachel Wing
Postado por em 24 de outubro de 2011
Star-Crossed: Romeu e Julieta (Star-Crossed: Romeo e Juliet)
Rachel Wing

ISBN: 9788576768838
Editora: Fundamento
Tradutor: Neuza Capelo
Ano de publicação: 2011
Páginas: 170
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$29,50
Onde comprar:
Saraiva | Cultura

Star-Crossed é um daqueles livros gostosinhos de ler, sabem?  Daqueles que a gente começa a ler num dia e termina no dia seguinte. Não traz muita ansiedade e nem faz pensar demais. É leve (de peso e de conteúdo), fofinho, romântico e não tem pretensões de ser o “livro do ano”. Simplesmente uma “dramédia-romântica” para menininhas, com uma capa linda.

O livro, que é uma releitura moderninha de Romeu e Julieta, nos conta a história de Jen e Chris. Suas famílias são inimigas há muitos anos e ambos, convenientemente, também se odeiam. Mas, como o destino – pelo menos nas comédias-românticas – é um garoto brincalhão, calha de ambos serem escalados para viver Romeu e Julieta em uma montagem teatral no colégio. A partir daí eles se conhecerão melhor e vocês já devem imaginar o que acontece. Não há absolutamente nada no livro que traga uma surpresa.

Aí vocês devem estar pensando: “nossa, deve ser super chato esse livro aí”. Nem é. Como eu disse lá em cima, o livro é gostosinho de ler. A gente já sabe tudo o que vai acontecer, mas é divertido ver as coisas acontecendo. Meninas adoram comédias românticas e eu não sou exceção, me divirto com todas que eu leio.

O diferencial do livro fica por conta da narração. Rachel Wing nos conta sua história como se os fatos estivessem ocorrendo com quem lê a história, ela coloca o leitor totalmente na pele de Jen, por exemplo: “Você para, respira, olha para ele e diz…”. Deu pra pegar? Acho que seria algo como uma narração em 2ª pessoa.. Mas é um negócio esquisito. Eu nem sabia que esse negócio de narração em 2ª pessoa existia – existe? Bom, a questão é que em Star-Crossed existe. Incomoda no início, mas depois que acostuma a gente nem sente.

Enfim, livro delicioso e recomendado para meninas novinhas, como aquela sua irmã/prima/vizinha de 14 anos que está se apaixonando pela primeira vez. Star-Crossed vai fazer os olhinhos dela brilhar, tanto pela capa, quanto pela história.

A Arte de Perder, de Michael Sledge
Postado por em 26 de agosto de 2011
A Arte de Perder (The More I Owe You)
Michael Sledge

ISBN: 9788580440973
Editora: LeYa
Tradutor: Paulo Henriques Britto
Ano de publicação: 2011
Páginas: 320
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$39,90
Onde comprar:
Submarino | Cultura

A Arte de Perder é o romance de estréia do americano Michael Sledge. Ele conta a história de amor da poetisa americana Elizabeth Bishop com a paisagista brasileira Lota de Macedo Soares, no Rio de Janeiro dos anos 50. Boa parte do livro é ficção, situações criadas por Sledge com base em cartas e diários deixados por Elizabeth, o restante, acontecimentos históricos e políticos nos quais as protagonistas estiveram envolvidas, ou melhor, Lota se envolveu e Elizabeth foi desesperada atrás, rezando para que nada acontecesse à outra.

Comecei a ler A Arte de Perder sem muita noção de quem eram as duas, conhecia por alto a história de Elizabeth – e bem por alto, pois não tenho muita paciência pra poemas – e de Lota nunca tinha ouvido falar, resolvi esse problema fazendo uma visitinha à Wikipédia e, a partir daí, ficou bem mais fácil prosseguir com a leitura: Sledge não faz grandes descrições de suas personagens e isso pode deixar o início do livro meio confuso para pessoas distraídas, como eu.

O livro começa no ponto em que Elizabeth, sozinha, desembarca no Brasil, apenas para uma breve passagem. No Rio de Janeiro ela reencontra amigos antigos, Lota entre eles. Dá pra notar de cara que elas já sentiam uma leve atração uma pela outra, mas o calor do novo país parece fazer com que as coisas venham rapidamente à tona e a relação das duas evolui de forma meteórica, devastadora, a ponto de Elizabeth mudar-se para o Rio de Janeiro e passar lá longos anos de sua vida.

Vivendo juntas na casa de Lota, em Petrópolis (cidade serrana do Rio de Janeiro), as duas acompanham uma verdadeira ebulição política no Rio, com protestos constantes do futuro governador Carlos Lacerda contra a política de Getúlio Vargas. O autor nos narra cenas cotidianas entremeadas por acontecimentos históricos importantes, criando um equilíbrio interessante na narrativa, ao mesmo tempo que consegue achar um espaçinho para o processo criativo de Elizabeth com seus poemas e, especialmente, seu problema com a bebida.

Os mais conservadores provavelmente ficarão com um pé atrás com o livro, por se tratar de um romance entre duas mulheres, mas o livro é tão bem conduzido que isso simplesmente sai de foco. Sledge se limita a narrar cenas de pouco contato “físico” entre as duas protagonistas e foca no caráter romântico da história. As cenas em que Lota cuida de Elizabeth após suas crises com a bebida são emocionantes e fica claro que a relação das duas foi muito profunda, a narrativa deixa óbvio que elas se completavam por inteiro, mesmo sendo tão diferentes.

É um livro tranquilo, mas com alguns detalhes confusos: a passagem do tempo é um caos, faltam informações sobre os personagens e alguns momentos são tão melosos que um diabético passaria mal. Mas não são pontos que prejudiquem demais a leitura e dá pra ignorar na maior parte do tempo. A capa e o acabamento do livro são muito bonitos, as páginas são todas desenhadas e há alguns poemas de Elizabeth destacados no texto – poemas estes que eu não li, sorry. Não tenho mesmo paciência para poesia.

Um ponto de destaque é o filme que está sendo produzido, baseado no livro. Lota será representada por Glória Pires e a atriz que interpretará Elizabeth ainda não foi escolhida. Por fim, A Arte de Perder é um livro interessante. E indeciso também, tanto pode gerar delírio nos amantes da obra de Bishop quanto pode deixá-los revoltados, afinal, muitas das coisas que lemos no livro simplesmente não aconteceram.

O Viajante do Século, de Andrés Neuman
Postado por em 23 de agosto de 2011
O Viajante do Século (El Viajero del Siglo)
Andrés Neuman

ISBN: 9788579620584
Editora: Alfaguara
Tradutor: Maria Paula Gurgel Ribeiro
Ano de publicação: 2011
Páginas: 456
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$54,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Um livro diferente de tudo que você já foi escrito nos dias de hoje.

Em O Viajante do Século, Andrés Neuman faz uma viagem através do século XX sob os olhos do personagem Hans, um viajante transitório que chega à cidade de Wanderburgo meio que sem querer, pulando do coche no meio da chuva. A princípio essa cidade era para ser apenas um pernoite, um local de passagem para o destino final de Hans. Só que Wanderburgo se mostra muito mais do que isso e em suas ruas labirínticas, Hans se perde entre suas ruelas e seus moradores.

Andrés levou seis anos para compor esta obra, entre escrevê-la e publicá-la. É um tempo razoável, uma vez que o livro tem uma narrativa emaranhada, costurada, quase sem pontuação. Existem duas histórias paralelas: a primeira trata da viagem de Hans e os motivos que o faz ficar na cidade (ter conhecido o realejeiro e Sophie) e a segunda é a história do próprio autor, que se aproveita de seu romance para repassar suas percepções acerca de diversos temas, polêmicos ou não. Sobre este segundo tópico, Andrés se expressa principalmente quando os personagens se encontram no Salão da casa dos Gottlieb, família de Sophie. Participantes deste salão, além de Hans e Sophie, temos o pai desta, Sr. Gottlieb, o professor Lieven, um judeu, um espanhol, uma senhora afetada e, posteriormente, o Sr. Wilderhaus, noivo de Sophie.

Confesso que muitas vezes achei meio enfadonho ficar lendo sobre as digressões do autor, postas na literatura através das inúmeras discussões dos personagens do Salão sobre os mais variados temas, desde a culinária espanhola até a participação alemã na guerra e seus reflexos na sociedade. Andrés, por ter sido professor durante muito tempo (inclusive durante a escrita deste livro) se aproveita destas ocasiões para inserir seu próprio ponto de vista, e nós, leitores, facilmente identificamos aquilo como uma aula, como uma discussão professor-aluno dentro de um determinado tema. Teria sido interessante se fossem apenas algumas, porém como toma boa parte das quase quinhentas páginas do romance, acaba cansando o leitor.

Entretanto, não é, de maneira nenhuma, um livro chato. É, antes disso, um livro para se ler aos poucos, mastigando, refletindo sobre as inúmeras frases de efeito que escapam aqui e ali nas entrelinhas. Escrevendo sobre o século XIX mas com a cabeça e os temas do século XX, Andrés faz um gigantesco panorama da sociedade europeia, deixando-nos com a real sensação de ter viajado um século em apenas um livro, acompanhando as mudanças estéticas e sociais da organização social de um conjunto de países buscando seu lugar no mundo, em paralelo com o amor de Hans e Sophie, que igualmente busca seu lugar num mundo em que não é possível sua existência.

Tendo conhecido pessoalmente o autor durante sua visita à FLIP 2011, não faço a menor ideia de como ele conseguiu escrever esta obra, posto que ele fez tanto sucesso com a mulherada, devido ao seu charme e bom humor. Um belo exemplo de que conhecer o autor pode influenciar positivamente a leitura de um livro.

Último Trem, de Marco Simas
Postado por em 9 de agosto de 2011
Último Trem
Marco Simas

ISBN: 9788588782709
Editora: Vieira & Lent
Ano de publicação: 2010
Páginas: 304
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$42,00
Onde comprar:
HotsiteSaraiva | Cultura

Poucos livros que li esse ano me emocionaram tanto quanto Último Trem, de Marco Simas. Eu fico imaginando por que motivos o autor não está por aí escrevendo mais e ganhando rios de dinheiro porque ele é simplesmente um gênio da literatura nacional. Há muito tempo não lia um livro tupiniquim que mexesse tanto comigo e me deixasse tão contente e esperançosa: entre tantas tentativas, aqui no Brasil, de se escrever gêneros populares como fantasia e chick-lits, foi exatamente um livro despretensioso, com um protagonista idoso e falando de cinema que conquistou meu coração. Chega a ser irônico.

Último Trem nos conta a história de dois personagens extremamente diferentes e, ao mesmo tempo, bastante parecidos: Miguel, um cinéfilo de 65 anos, projetista, que dedicou toda a sua vida ao Cine Vera Cruz e a levar a magia do cinema a todas as pessoas que soubessem apreciá-la. E Angelina, adolescente de uns 16 anos, atriz, que foge de casa (e de um mundo que lhe oferecia apenas abusos e violência) atrás de seus sonhos, que nem ela mesma sabe ainda quais são. A história se passa no início da década de 90, época em que o governo Collor praticava abusos contra a população e o Brasil enfrentava uma grave crise econômica. Com a crise, o Cine Vera Cruz, cinemaem que Miguel morava e trabalhava, é fechado para dar lugar a uma grande Igreja Evangélica. Miguel, sem rumo e pego de surpresa, vai morar em uma pensão para idosos, sem perspectiva nenhuma para o futuro.

No outro vértice da história, Angelina resolve fugir de casa após uma tentativa de estupro praticada por seu padrasto e, seduzida pela aventura (e por um Don Juan da vida), vai embora, levando apenas sua mochila e seus sonhos. Em algum ponto da história Miguel e Angelina se encontrarão e o amor que ambos tem pela arte os levará a um vilarejo no interior do país, onde as pessoas jamais viram um cinema, ou mesmo sabem o que significa isso. Para Miguel, uma oportunidade de levar a diversão às pessoas, de fazer algo pelo mundo, de deixá-lo mais feliz. Para Angelina uma fuga, uma nova aventura e, principalmente, uma oportunidade de compartilhar de todo o conhecimento que Miguel tem a oferecer.

A narrativa é simples mas recheada de referências a gênios do cinema, estrangeiros e brasileiros. As falas de Miguel muitas vezes são permeadas por textos retirados de clássicos cinematográficos e são de uma sabedoria ímpar, que fez meus olhos brilharem ao reconhecer alguns (não muitos, admito). Angelina e Miguel se completam de uma maneira linda, como um pai e uma filha que se reencontram após muitos anos e se sentem bem apenas em sentir um a presença do outro. Ambos tem o mesmo fulgor, a mesma vontade de mudar o mundo de maneira simples, apenas fazendo as pessoas felizes, apenas com entretenimento.

Último Trem foi um livro que eu simplesmente amei ler. Sabem aquele sentimento bom ao terminar cada capítulo? Não é um frenesi como o de livros de aventura e sim uma vontade de curtir devagar, de saborear a história, viajar nela, acompanhar cada detalhe. Há livros que dão um prazer muito grande ao serem lidos e Último Trem, com certeza, é um destes.

Um ponto a ser destacado e exaltado é a presença do Cinema na obra, o Cinema em seu sentido geral. Dá pra sentir na leitura a paixão que Marco Simas tem pelos filmes a ponto de querer, ao terminar o livro, buscar e assistir todas as cenas que Miguel exalta na sua caminhada. É um grande mérito do autor conseguir juntar duas artes que, às vezes, se distanciam tanto e, em outras, se complementam, mas quase sempre nas telonas e pouquíssimas vezes nas páginas de um livro. Outro ponto que gostaria de destacar é o magnífico trabalho realizado pela editora Vieira & Lent. Eu não encontrei um erro de digitação/gramática/ortografia sequer no livro. A revisão é ótima, o espaçamento perfeito, a capa, o interior, tudo lindo. É o primeiro livro nacional que leio no ano sem erros e isso demonstra a seriedade da editora e, principalmente, o respeito que possui pelo trabalho de seus autores. Não são todas assim, posso garantir.

Por fim, concluo recomendando muito a leitura de Último Trem. Para qualquer pessoa, quer goste ou não de cinema. O livro é maravilhoso, delicioso de ser lido. Deveria, com certeza, figurar na lista dos mais vendidos, pois traz lições incríveis e personagens marcantes. Pena não ser o que o leitor brasileiro procura – ou está preparado para encarar.

Amor de Redencão, de Francine Rivers
Postado por em 3 de agosto de 2011
Amor de Redencão (Redeeming Love)
Francine Rivers

ISBN: 9788576860884
Editora: Verus
Ano de publicação: 2010
Páginas: 468
Classificação: 5/5
Onde comprar:
Submarino | Cultura

Nesta versão da história bíblica de Oseias, Francine Rivers conta o romance entre uma prostituta e um honesto e gentil agricultor que se casa com ela. Amor de redenção começa com a Corrida do Ouro de 1850 na Califórnia e sua atmosfera de dura competitividade e ganância. Angel, vendida como prostituta quando criança, aprendeu a desconfiar de todos os homens, que a veem apenas como uma forma de satisfazer seus desejos. Quando o virtuoso Michael Hosea recebe de Deus a ordem de se casar com Angel, ele obedece, apesar de seus receios.

A história do livro me prendeu por inteiro. Adoro polêmicas e adoro mais ainda quando elas envolvem religião. O livro trata de forma leve a famosa história bíblica de Oseias, porém de maneira bem mais intensa. A protagonista Angel faz com que você se apaixone por ela logo nas primeiras páginas, por sua história sofrida e triste e por sua beleza – a personagem é cativante.

Mas tudo isso até o surgimento de Michael: quando ele é introduzido no livro, você automaticamente desvia a atenção de Angel, pois além de bonito, é um homem bondoso e carismático. Ele se apaixona por ela no momento em que a vê andando pelas ruas de Pair a Dice.

A partir daí, você passa a se questionar sobre o amor dele por Angel e em como ela pode ser em alguns momentos bastante cruel com Michael. Você entende todo o sofrimento que Angel passou e é solidária a ele, mas não entende como ela pode ser tão cabeça dura.

Quando as coisas entre ela e Michael começam a melhorar, surge a família Altman, que pra mim foi parte essencial para todo desenvolvimento da história. Uma família de bem que aceita Angel mesmo sabendo de todo seu passado, e passa a vê-la como parte de sua família também. Eles abrem seu coração para ela e por incrível que pareça, ela começa a ter sentimentos sinceros por eles. Minha Altman favorita é Ruthie, a caçula tagarela da família que adora Angel desde o momento em que a vê.

Mas como já disse, Angel é muito teimosa e não se dá conta de muitas coisas que acontecem a seu redor, pois ela sonha em ser livre. A única coisa que ela não sabe é que ela é escrava de si mesmo.

O final do livro a meu ver foi muito corrido, restaram pontas soltas e faltou uma maior “satisfação” sobre como tudo termina. Sabe aquela sensação de livro inacabado? Fiquei assim. Tirando isso, o livro é mais que recomendando. Você ri , chora, se desespera e vibra. Para quem gosta de leituras com grandes emoções, esse é o livro certo.

A autora tem o dom de fazer você se transportar para a história sem que você perceba. Super indicado e super recomendado.

Amanhã Você Vai Entender, de Rebecca Stead
Postado por em 2 de agosto de 2011
Amanhã Você Vai Entender (When You Reach Me)
Rebecca Stead

ISBN: 9788580570540
Editora: Intrínseca
Tradutor: Flávia Souto Maior
Ano de publicação: 2011
Páginas: 222
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$24,90
Onde comprar:
Submarino | SaraivaCultura

Miranda é uma menina de doze anos que mora em Nova York nos anos 70. Ela conta seu cotidiano em Amanhã Você Vai Entender, lançado pela editora Intrínseca em junho. Morando com a mãe, ela conta como a ajuda a participar de um programa de perguntas e respostas na TV, como é sua rotina na escola, como é sua relação com os amigos (incluindo uma garota esnobe e um amigo que passa a ignorá-la), entre outras coisas. Essa é a parte boa do livro.

Então Miranda começa a receber uma série de bilhetes anônimos e estranhos. A pessoa que os escreve sabe de acontecimentos envolvendo Miranda – coisas que ainda não aconteceram. Depois de cada bilhete, o que estava escrito realmente acontece, deixando-a perplexa. O autor pede que ela não mostre os bilhetes a ninguém, e também que escreva uma carta. Paralelamente, pertences de conhecidos de Miranda somem de forma inexplicável.

A narração lembra A Menina Que Roubava Livros, outro livro da mesma editora. A leitura de Amanhã Você Vai Entender é ágil, tanto pelo tamanho da obra (220 páginas) quanto pelas descrições diretas. Ainda assim, é um livro meia-boca. O mistério em torno do livro é muito, muito fraco. Tirando quatro bilhetes e dois pertences roubados, nada mais acontece com relação a isso em todo o livro. O “segredo” não é suficiente nem mesmo para sustentar um livro curto. O final decepciona, e muito. Nada é explicado e tudo acontece de forma rápida, sem convencer o leitor e deixando a desejar. A sensação ao terminar o livro é a mesma de comer uma bolacha Água e Sal: não é ruim a ponto de causar arrependimento, mas também não é bom a ponto de dar muito prazer.

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