Policial
Bravura Indômita, de Charles Portis
Postado por em 17 de fevereiro de 2012
Bravura Indômita (True Grit)
Charles Portis

ISBN: 9788579620430
Editora: Alfaguara
Tradutor: Cassio de Arantes Leite
Ano de publicação: 2011
Páginas: 192
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Um livro que me tirou das mesmices de minhas leituras.

Eu sei, virou filme, e há mais de um ano, mas só agora tive a chance de ler este livro (que estava igualmente há um ano em minha estante). Me mostrou o quanto eu ainda deveria me aprofundar no gênero western de literatura, campo este ainda desconhecido por mim e por muitos brasileiros.

Bravura Indômita começa com a morte de um bom sujeito, pai de família, que teve a infelicidade de tentar segurar um bêbado enfurecido – Tom Chaney – e acaba assassinado por este. Assim que sabe da morte de seu pai, Mattie Ross decide vingá-lo (afinal, o assassino trabalhava para sua família!) e, assim, parte para a cidade de Fort Smith, no Arkansas, para seguir o rastro do assassino e cuidar do traslado do corpo. Apesar de ser menina e ter apenas quatorze anos, Mattie não abaixa a cabeça pra ninguém: consegue revender os pôneis recém comprados por seu recém falecido pai e convence Rooster Cogburn – um fora-da-lei-convertido-em-US-Marshall – a investigar Chaneye ajudá-la a encontrá-lo (claro, mediante pagamento). Só que no meio do caminho aparece o texano LaBoeuf, com uma proposta tentadora e, assim, os três saem pelo deserto de Oklahoma atrás do rastro de Tom Chaney e outros bandidos.

Mattie Ross é uma senhora protagonista! Cabeça-dura, teimosa, certinha e até um pouco mimada, só aceita as coisas do jeito dela. E tá certo, afinal, é ela quem está pagando, né? Mas é também uma garota valente, dura na queda, sem frescuras e muito mais “macho” que muito marmanjo com pistola. O trio é completo assim. Como a narrativa é contada sob o ponto de vista de Mattie, apesar do assunto “pesado” das mortes e afins, a coisa fica um pouco suavizada, como quando ela não se avexa em dividir sua inocência com os leitores em achar que as cobras menores tinham menos veneno. Tudo é contado como se você e ela estivessem numa fogueira, trocando histórias sobre o passado.

O que Charles Portis fez com essa narrativa é interessantíssimo, transcrevendo a linguagem oral (inclusive suas gírias e vícios de linguagem da época) para a literatura, escrevendo sobre uma época que ele não viveu, mas, ainda assim, muito fresca na cultura norte-americana. Ele soube exatamente quando acelerar os fatos e quando “se perder” em divagações, como se realmente Mattie estivesse na sua frente contando o causo. O autor também se preocupou em retratar não apenas os costumes de vestimenta e comida da época, mas principalmente a sensação de perspectiva de vida, os valores que eram apreciados e o tipo de coisa que as pessoas tinham que fazer para sobreviver naquele Meio Oeste, perdido entre o deserto e a fronteira. E Charles fez tudo isso sem ser bruto, mas, ainda assim, mostrando a bravura de sua protagonista. Difícil criar uma protagonista valente sem ser machona, mas Mattie é “uma mulher com cérebro, uma língua afiada, uma manga presa com alfinete.”

Vale a leitura se você quer ler algo novo.

A Farsa, de Christopher Reich
Postado por em 4 de janeiro de 2012
A Farsa (Rules of Deception)
Christopher Reich

ISBN: 9788599296417
Editora: Arqueiro
Tradutor: Fernanda Abreu
Ano de publicação: 2009
Páginas: 336
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Todo apaixonado por literatura que possui, por consequência, uma certa “solidariedade literária”, sabe qual é o prazer de se dividir uma experiência lida, vivida através das palavras. Incentivar as pessoas das quais eu gosto a ler mais e desbravar horizontes cada vez mais inusitados, ao lhes emprestar um exemplar que guardamos com carinho na estante – no meu caso, dentro do guarda-roupa – me deixa abobadamente orgulhoso, e qual foi a minha surpresa ao receber um empréstimo em retorno da minha querida prima Luana Aquino. Foi minha vez de reviver a experiência dela sob minha perspectiva, na trama de A Farsa, do norte-americano Christopher Reich.

Grande parte da aventura de espionagem tem lugar na Suíça, país onde o autor trabalhou como banqueiro por certo período, adquirindo familiaridade e riqueza nos detalhes do percurso. Há três personagens centrais na narrativa de Reich: Jonathan Ransom, um médico que atua em localidades precárias ao redor do mundo e protagonista deste thriller; Emma, sua esposa que, logo no início do livro, despenca em um desfiladeiro nas geleiras e morre drasticamente; e o detetive Marcus Von Daniken, um homem do Serviço Secreto que está atrás do principal suspeito de um atentado terrorista iminente: o próprio Jonathan.

Atordoado com a morte da mulher, Jonathan descobre uma encomenda endereçada a Emma cheia de dinheiro, identidade falsa e muitos mistérios sem resposta. É a partir daí que Ransom embarca em uma jornada atrás da verdadeira identidade – se é que existiria uma – da falecida e amada esposa e, ao mesmo tempo, vira alvo de uma caçada mortal; ao contrário da realidade, quem quer que estivesse por trás da verdade e da relação de Emma aos atentados planejados na Suíça pensa que Jonathan sabe demais e precisa ser silenciado.

É inevitável ao longo da trama não comparar a obra de Reich aos livros de Dan Brown. Semelhanças de estilo cuja narrativa transcorre como cenas de um longa metragem. Contudo, saudade foi o que mais me consumiu pelas páginas de A Farsa. “Não é Dan Brown”, insistia meu pensar. Existe até um assassino intitulado “o Fantasma”, referência direta ao fanático religioso que é personagem de Brown em O Código Da Vinci (2003).

A trama agrada aos fãs de espionagem – quem vos escreve inclui-se na lista – e de conspirações, mas confesso ter me arrastado pelos capítulos principalmente no começo, por ser extremamente difícil ligar todos os personagens até a página 100. Contudo, as revelações finais surpreendem os desavisados e deixa o caminho livre para as continuações: A Vingança (Rules of Betrayal, 2009) e A Traição (Rules of Betrayal, 2011).

Meus agradecimentos pela experiência, Lu!

As Esganadas, de Jô Soares
Postado por em 16 de novembro de 2011
As Esganadas
Jô Soares

ISBN: 9788535919752
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2011
Páginas: 264
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$36,00
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

No Rio de Janeiro da década de 30, um serial killer surge à procura de um tipo específico de vítimas: mulheres gordas. Para impedir o maníaco de continuar com seus assassinatos, quatro pessoas são chamadas para trabalhar no caso: um delegado, seu fiel assistente, um português confeiteiro e uma jornalista sensual e destemida. Apesar de o número de vitimas crescer consideravelmente, não há nenhuma pista em todas as cenas dos crimes. O criminoso, por algum motivo desconhecido, não deixa uma digital sequer.

Essa é a trama de As Esganadas, de Jô Soares, que marca a volta do apresentador à escrita após um hiato de seis anos. É também um bem sucedido retorno à lista dos livros mais vendidos, já que a obra ocupa atualmente o primeiro lugar na categoria ficção, após uma grande divulgação com entrevistas do autor em diversos programas de televisão. O livro, o primeiro que leio do escritor, é um romance policial histórico que exigiu uma tremenda pesquisa – fato comprovado pela bibliografia registrada nas últimas páginas. Desde as ruas históricas, passando pelos cafés e até os fatos que marcaram o final daquela década, Jô debruça sobre a história brasileira e a vida carioca da época, dando ao leitor um romance bem ambientado, verossímil e gostoso de ler, principalmente por remeter à cultura daquele momento, passando pelas artes, o cinema, o teatro, a literatura e o futebol. A narrativa policial se entrelaça facilmente com os acontecimentos históricos, como a explosão da II Guerra Mundial, o governo Getúlio Vargas e a Copa do Mundo.

Ao contrário de outros romances policiais, Jô não mantém a identidade do serial killer oculta; pelo contrário, ela é revelada ao leitor desde o início. É uma boa alternativa, já que foge do óbvio ao gênero. Dessa forma, não cabe ao leitor tentar descobrir quem é o assassino – o que seria um tremendo clichê. Enquanto os investigadores tentam juntar as poucas peças disponíveis do quebra-cabeça, a diversão é a forma como eles acabam encontrando as respostas que procuram, e também a ótima narrativa, sempre bem humorada. Jô Soares escreve de forma excelente. Seus quatro personagens principais foram muito bem criados, e logo de início é fácil reconhecer e se identificar com cada tipo. Sua linguagem é culta e formal, remetendo aos próprios clássicos do gênero policial. Mas, ainda que soe como um clássico, a linguagem de As Esganadas não é enfadonha, bem pelo contrário; a obra é prazerosa, uma leitura que corre com fluidez e sem obstáculos. Um livro para ser lido em poucos dias, até porque o leitor ficará curioso para saber o desfecho da trama.

Talvez por não omitir o nome do assassino desde o início, o final de As Esganadas não guarda um clímax tão poderoso, mas, ainda assim, não deixa de ser satisfatório. É apenas rápido demais, já que acontece em apenas dez ou quinze páginas. Apesar disso, a leitura é gostosa e não traz arrependimento em momento algum, mostrando que, mesmo quando foge do clichê e entrega o ponto principal da trama, Jô Soares se sai bem como escritor e consegue fazer um ótimo livro.

O Poder e a Lei, de Michael Connelly
Postado por em 11 de outubro de 2011
O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer)
Michael Connelly

ISBN: 9788501077288
Editora: BestBolso
Ano de publicação: 2011
Páginas: 420
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$39,90
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

Se o cara é inocente, paga mais, porque é bem mais complicado defendê-lo.

É exatamente isso. O advogado Michael Haller, personagem principal do livro, é atormentado por um único medo: o de não reconhecer a inocência quando estiver diante de uma. Essa característica do personagem é genial, porque dá o mote para que toda a trama do livro se desenrole com um viés dramático bem pior, pois a injustiça é um sentimento comum a todo ser humano.

Scott Turow, na quarta capa do livro, diz: “Michael Connelly está á vontade no mundo dos advogados de defesa.” E está mesmo! É um verdadeiro show de pesquisa e de escrita, pois na primeira metade do livro você tem a impressão de que é apenas mais um livro sobre advogados, mas então você tem uma excelente reviravolta na trama que é impossível não dizer uau!.

Michael Haller tem uma personalidade forte e embora ele seja advogado de defesa (ou seja, trabalhe para liberar os bandidos da prisão) é impossível não simpatizar com ele. Sem contar que, particularmente, acho que o Matthew McConaughey nasceu para este papel. É só olhar o olhar seboso e nojentinho na capa!

Meu único porém foi justamente sobre esta nova versão. Quero dizer, a editora Record refez a capa para fazer link com o lançamento do filme nos cinemas, e isso é bacana. Mas não mudou o miolo, o que ficou esquisito, e digo isso não só porque eles reformularam a capa mas não reimprimiram com as novas regras de ortografia; além disso, o arquivo impresso foi o mesmo da versão anterior, então você vai lendo o livro e vê lá em cima da mancha, nas páginas pares do livro, o título Advogado de Porta de Cadeia. Achei isso confuso, podiam ter mudado o miolo também.

O Crime Quase Perfeito, de Percival de Souza
Postado por em 29 de setembro de 2011
O Crime Quase Perfeito
Percival de Souza

ISBN: 9788588121300
Editora: Idea
Ano de publicação: 2010
Páginas: 96
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$19,90
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

O Crime Quase Perfeito, do Percival de Souza é um livro tão pequenininho, mas tão pequenininho que eu tenho medo de exauri-lo caso exagere na quantidade de caracteres dessa resenha. Ele nos apresenta Eustáquio e Percy e, em torno de ambos, girará o enredo do livro.

A história começa no ponto em que Eustáquio, revoltado, abandona sua mãe após seu pai ter morrido e ela ter assumido o posto de chefe da família. Ele sai de casa, arruma um emprego público por indicação, se apaixona e casa. Já Percy é o repórter investigativo que vai desvendar o crime quase perfeito do título: um suicídio ocorrido dentro de uma delegacia de polícia com a arma do escrivão.

Como eu já informei ali em cima o livro é curtinho, eu o li em uma viagem de ônibus. A narrativa de Percival de Souza é rápida e envolvente, quase uma reportagem, e não há muito aprofundamento nos personagens nem emoções fortes. O ponto de interrogação da história é representado especificamente por Eustáquio: qual é realmente o seu problema? Por que ele se incomoda tanto em ser preterido pela mãe na liderança da família? Esse tipo de coisa. E o fato de haver questionamentos não quer dizer necessariamente que haja respostas.

Pareceu-me que, por o autor ser um repórter policial, ele meio que se esqueceu de dar um toque de drama aos personagens e passou a narrar o livro como se fosse uma grande reportagem: nós não conhecemos nenhum deles muito bem, sabemos apenas que estão lá, investigando um possível crime e pronto. O negócio é que, para quem está acostumado a ler romances e fantasia, que tem uma escrita mais floreada, O Crime Quase Perfeito parece ser seco e duro demais, quase cruel.

De qualquer maneira, é interessante acompanhar a incursão de um jornalista reconhecido no mundo da ficção. Por mais que seu livro me pareça ligeiramente autobiográfico, a ideia é bastante interessante e o livro age como uma boa distração: rápido, bem escrito e mais leve do que esperado. Resta o pesar de notar que o mistério da história pode ser descoberto pelo leitor antes da metade da narrativa, o que poderia causar certo desânimo caso o livro fosse maior.

Mas como ele não é, fica a recomendação. Falta muito para Percival de Souza ser um grande autor de romances policiais, mas ele está no caminho certo.

A Confissão, de John Grisham
Postado por em 11 de julho de 2011
A Confissão (The Confession)
John Grisham

ISBN: 9788532526540
Editora: Rocco
Ano de publicação: 2011
Páginas: 480
Classificação: 4/5
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

Depois de um confuso e insípido Theodore Boone, John Grisham retoma com tintas quentes sua extraordinária prosa para romances policiais em A Confissão. A trama gira em torno do assassinato de uma jovem estudante branca – bonita, por óbvio – no Texas, sendo o principal suspeito um estudante negro jogador de futebol da equipe do colégio da moça.

Caindo em uma série de armadilhas no início do processo investigatório, ele acaba confessando o crime em um interrogatório muito suspeito. Após a exploração destas provas, a promotoria do Estado consegue a condenação à pena de morte do estudante negro, tendo como principais elementos a confissão do suposto e o depoimento de outro estudante/jogador (branco), interessado em outras coisas além de acusar o suspeito.

Às vésperas da execução aparece um indivíduo se declarando culpado para um pastor de uma igreja distante, colocando ingredientes dramáticos não apenas sobre a veracidade de seu depoimento mas também sobre o tempo hábil para a suspensão da execução do antigo suspeito condenado à morte. O homem se apresenta bastante debilitado, com uma suspeitade um tumor maligno na cabeça sem condições de ser operado, indicando um provável final de vida em breve.

Após pequena investigação, o pastor confirma informações dadas pelo declarante, que diz poder inclusive mostrar onde ele enterrou o cadáver da jovem moça assassinada. Com requintes de crueldade, ele conta como passou dois dias com a vítima, praticando abuso sexual e depois levando a moça a morte através de estrangulameto com um cinto de couro. Sensibilizado com a história, o pastor entre em contato com o advogado de defesa do negro acusado que, mesmo na eminência da execução, continua trabalhando arduamente no sentido de tentar sustar o processo.

Começa aí uma corrida contra o tempo entre a ida do pastor com o assassino declarado, e o dia e hora marcada para a execução. Aí aparece o extraordinário talento do autor com sua prosa eletrizante prendendo o leitor a cada linha. Impossível parar, mesmo reconhecendo que vez por outra John Grisham namora com uma linguagem quase brega.

Evidente que John Grisham aproveita o ótimo enredo para expor com tintas fortes sua crítica ao sistema judiciário americano e, em particular, aos processos que acabam na pena de morte.

Ágil, eletrizante e envolvente. Hollywood não vai perder tempo.

A Vingança, de Sylvio Amadeo
Postado por em 8 de julho de 2011
A Vingança
Sylvio Amadeo

ISBN: 9788588121324
Editora: Idea
Ano de publicação: 2010
Páginas: 160
Classificação: 1/5
Onde comprar:
Saraiva | Cultura

Sabem aquela história de que “todos os livros são maravilhosos”, “eu quero ler todos os livros do mundo” etc, etc, etc? Pois é. Há livros que lutam com todas as suas forças para derrubar essas máximas e, em todas as suas páginas, travam uma dura batalha contra a literatura de boa qualidade, com tanto empenho que quase acabam vencendo.

A Vingança é esse tipo de livro. Não adianta que a ideia seja boa, a premissa interessante, que tenha valorização de cenários nacionais, personagens com nomes comuns. Mesmo com todos esses bônus, A Vingança não consegue ser aquele livro. É fraco mesmo e pronto. E, vejam bem, eu fiz MUITO esforço pra gostar do livro – até o li todo, coisa que eu não faço, de jeito nenhum, se não gostar do livro de cara.

Mas, antes de me rasgar em críticas, vamos fazer um resuminho:

Daniela é uma médica paulistana que perdeu quase toda a sua família nos últimos três anos. Ela também está se divorciando de maneira litigiosa e está quase em depressão. Certo dia, ela vai visitar a sepultura de sua mãe e percebe que alguém, além dela, anda deixando flores ali. Logo, ela decide investigar e descobre (numa sequencia completamente inverossímil) que o padrasto, Sérgio, que julgava morto, está vivinho da silva, vivendo numa Ilha deserta no litoral paulista. A partir daí, eles descobrem que o filho morto de Sérgio, Rodrigo, foi, na realidade, assassinado por causas políticas, em Brasília. Sérgio resolve, então, que vai acertar as contas com os responsáveis pela morte de seu filho e o resto é história.

Como eu disse, a premissa é relativamente interessante, mas terrivelmente mal aproveitada. Para começar, a própria Daniela, além de ser uma tremenda mala, é totalmente inútil na história. Sério, a menina não serve pra nada e cada passagem que ela protagoniza dá uma vergonha alheia que é difícil de suportar. O verdadeiro protagonista da história é Sérgio, com a tal vingança do título do livro. O problema é que Sérgio também não é um personagem cativante, pelo contrário. O cara não tem senso de moral nenhum e ainda tem uma leve tendência à pedofilia – isso porque o livro foi publicado com incentivo do governo…

Outra situação que me incomodou muito foi a, mesmo que sutil, atração sexual de Sérgio por Daniela. Putz, ela é enteada dele! Ele é viúvo da mãe dela! Isso é muito bizarro. Se a intenção do livro fosse chocar sexualmente as pessoas eu entenderia, mas a idéia é a “limpeza-forçada-de-Brasília-por-causa-da-morte-do-menino-idealista-incorruptível” logo, esse choque é bastante mal colocado. Assim como a observação de um dos personagem de que “no Nordeste, todos os padrastos ‘testam’ suas enteadas, isso é normal”. De onde o autor tirou essa ideia, alguém pode me dizer? Eu, se fosse nordestina, ficaria, no mínimo, chateada. É um comentário muito infeliz, muito infeliz mesmo.

Enfim, o autor, Sylvio Amadeo, até tenta dar uma lição de moral sobre a corrupção política em Brasília… Ok, o protagonista dele sai por aí matando gente inocente, transando com menores de idade, olhando com “luxúria” a enteada e ele ainda quer dar lição de moral?

Pra terminar, vocês já devem imaginar, não recomendo muito a leitura do livro. Mesmo com uma boa ideia, A Vingança não deixa de ser um livro fraco e sem objetivo. O tema da corrupção em Brasília deveria, sim, ser tema de romances policiais, mas com personagens corretos, situações críveis e, principalmente, bom senso dos autores ao colocarem suas opiniões no papel.

O Espantalho
Postado por em 4 de maio de 2011
O Espantalho (The Scarecrow)
Michael Connelly

ISBN: 9788560280827
Editora: Suma de Letras
Ano de publicação: 2011
Páginas: 384
Classificação: 4/5
Onde comprar:
SubmarinoSaraivaCultura

O Espantalho, de Michael Connelly, não é nada disso que você está pensando.

Digo isso porque eu pensava assim quando peguei o livro em mãos. A começar pela capa, vermelho-preto-branco, não sei porque achei que se passava em Nova York; mas não, se passa na Califórnia – ao menos boa parte da história. Em segundo lugar, o título: Espantalho. Achei que se tratava de alguma coisa tipo assassino no centro-oeste americano que gosta de atacar no meio das plantações.

Não é nada disso. E isso é o único spoiler que vou dar ainda que não seja um spoiler, pois acho que saber essa informação aproximará o leitor do livro, e não o contrário.

A sinopse é bem tímida ao dizer que se trata de um repórter do Times, Jack McEvoy, que é demitido e que decide aproveitar seus últimos dias para escrever a grande matéria de sua vida, ao mesmo tempo em que é incumbido da humilhante tarefa de treinar seu próprio substituto, a recém-graduada Ângela Cook.

É muito mais do que isso. Os personagens são bem construídos e como o personagem central é um mero repórter e não um agente do FBI ou um policial, a sensação é a de que o leitor vai acompanhando Jack em seu passo a passo, aprendendo e descobrindo as coisas junto com ele, já que estamos juntos nessa sombra que é o não-saber sobre o desconhecido – o Unsub.

Lendo a breve biografia do autor, percebi que ele foi repórter policial por dez anos antes de se tornar escritor. Fiquei me perguntando até que ponto eu não estava lendo as próprias anotações pessoais de Conelly acerca do mundo, pois através de Jack McEvoy descobrimos os intrínsecos buracos e as verdadeiras facetas que envolvem o mundo jornalístico, que por sua vez não é muito diferente do que acontece em muitas outras repartições públicas e privadas da sociedade.

Para os fãs de seriado policial, não haverá desapontamento: está no livro uma agente federal especialista em psicologia criminal do FBI/UAC, o repórter indignado com a sociedade e que quer fazer a sua parte por um mundo melhor e, claro, o suspeito extremamente inteligente e meticuloso que não deixa nada a desejar para os fãs desse tipo de literatura.

E para os que se preocuparam, como eu, de não ter lido os outros livros de Conelly antes: embora seja sempre melhor seguir a linearidade das coisas, começar por O Espantalho não influi em nada. Não há nada ali que conte coisas drásticas dos livros anteriores e talvez seja até melhor começar por este, já que, como disse, tem-se a impressão de estar realmente próximo do autor.

A dica é comprar o livro e devorar a leitura o quanto antes, afinal, a editora já confirmou a vinda do autor para a Bienal do Rio em setembro.

E, claro, depois da leitura desse livro, nunca mais comerei Fandangos.

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