Fantasia
Em Chamas, de Suzanne Collins
Postado por em 24 de janeiro de 2012
Em Chamas (Catching Fire)
Suzanne Collins

ISBN: 9788579800641
Editora: Rocco
Tradutor: Alexandre D’elia
Ano de publicação: 2011
Páginas: 416
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$48,00
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Se Jogos Vorazes teve um começo lento, e demorou até tornar-se um livro viciante, o mesmo não acontece com sua seqüência, Em Chamas. O segundo volume da série apresenta um ritmo intrigante do começo ao fim, transbordando ação e suspense em quantidade suficiente para fazer o leitor virar as páginas sem parar. É um livro ainda melhor e mais surpreendente que o primeiro, algo incomum em séries juvenis, que geralmente caem na mesmice no segundo volume, a prova de ferro do talento do escritor em manter uma trama.

Em Chamas traz os acontecimentos imediatos ao primeiro volume. Após escaparem vivos dos Jogos graças a uma trapaça, Katniss e Peeta agora enfrentam a fúria do presidente Snow, que acredita que o ato desencadeará o início de uma revolução por toda Panem. Para ele, a estratégia utilizada indicará aos distritos que o poder da Capital é limitado e um golpe pode ser bem sucedido. Snow aparece em pessoa para ameaçar Katniss e convencê-la a lutar contra isso, mostrando a população que um ato de rebeldia seria perda de tempo. Ainda assim, Katniss está perdida, sem saber o que fazer, já que não decide se obedece e protege sua família ou ajuda a criar uma rebelião, tornando-se líder dela, e livrando todos dos futuros Jogos. Ela não espera, no entanto, que a Capital está tramando algo maior contra eles, e que ela e Peeta serão obrigados a lutar novamente.

Como se vê, a trama da série caminha para um destino ainda mais político, abordando guerras e revoluções, que deve se intensificar no terceiro volume, como o fim de Em Chamas mostra. No segundo livro, no entanto, ainda não chegamos lá – estamos apenas a caminho. Toda a trama envolta nisso torna o livro tenso, denso e agonizante, sensações que acabam por prender o leitor até o fim de maneira eficiente. O final, aliás, é intrigante, e o leitor certamente irá querer correr para ler o terceiro e derradeiro livro.

Quando Katniss caminha para o seu segundo “Jogos”, já na metade de Em Chamas, tudo acontece muito rápido, e ao chegar ao final, fica a gostosa impressão de que o livro precisava ser maior, principalmente para cobrir toda a ação da arena. Ele apresenta novos personagens, que mudam de caráter ao longo da narrativa, e intensifica o triangulo amoroso central, sem tornar-se meloso ou cansativo.

O segundo volume de Jogos Vorazes é a prova que a série é uma excelente opção de leitura, tanto pelo divertimento quanto pelas mensagens e críticas políticas que podem ser lidas nas entrelinhas. É a prova que Suzanne Collins veio para ficar, e que o sucesso de seu primeiro livro não é apenas sorte ou marketing. “Jogos” é de fato uma das melhores e mais viciantes séries lançadas nos últimos anos.

Coraline, de Neil Gaiman
Postado por em 7 de dezembro de 2011
Coraline (Coraline)
Neil Gaiman

ISBN: 9788532516268
Editora: Rocco
Ano de publicação: 2003
Páginas: 160
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$31,00
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Coraline conta a história de uma garotinha que deve ter entre 8 e 9 anos. A garotinha, Coraline, é absurdamente esperta e tem alguns problemas constantes como a falta de tempo dos pais e o fato de as pessoas jamais falarem seu nome corretamente (é Coraline e não Caroline!).

Coraline é aquele tipo de livro que toda criança deveria ler ao fazer 9 ou 10 anos de idade. É o livro que eu gostaria de ter lido naquela época porque é simplesmente maravilhoso! Ele aborda os principais medos de qualquer criança de uma forma simples e criativa, e sem usar daqueles clichês que vários autores juvenis costumam usar (mini-romancezinho, crianças que parecem mini-adultos, crianças salvando o mundo, etc, etc, etc).

A história começa quando Coraline acha uma passagem secreta em sua casa para um universo alternativo, onde seus pais e vizinhos são travestidos em pessoas fisicamente melhoradas com botões no lugar dos olhos. O Neil Gaiman é genial em suas metáforas (quem aqui lembra do sangue literalmente azul do príncipe em Stardust?) e o fato de os olhos, a porta para a alma das pessoas, serem representados por botões deixa claro o caráter vazio e frio que ele pretende dar aos habitantes do “outro lado”.

Coraline pode ser considerado um pouco aterrorizante para algumas crianças, mas a sua mensagem é claríssima, e pode ser definida em uma frase do livro: “Porque — disse ela — quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem.” – tirada de uma conversa entre Coraline e o gato. Durante toda a história, o autor procura nos mostrar que o mais importante é superar os nossos medos. E isso Coraline faz durante todo o livro.

Para encerrar, há uma ligeira semelhança com a história de Alice (mundo alternativo, gato falante, pessoas esquisitas), creio que a história de Lewis Carroll seja meio que uma inspiração para o Neil Gaiman em Coraline. Mesmo assim, uma obra não deixa nada a desejar perante a outra.

O livro é perfeito para crianças e foge do estereótipo das histórias infantis, mergulhando em um universo ligeiramente sombrio, mas que qualquer criança encontraria coragem para desbravar. Suuuper recomendado!

O livro virou um filme – que eu ainda não vi. Pra quem leu, não leu, vai ler.. enfim, pra quem ficar curioso, segue o trailer:

A Mecânica do Coração, de Mathias Malzieu
Postado por em 15 de novembro de 2011
A Mecânica do Coração (La Mécanique du Coeur)
Mathias Malzieu

ISBN: 9788501087195
Editora: Galera
Tradutor: André Telles
Ano de publicação: 2011
Páginas: 192
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$32,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

“Um conto de fadas excêntrico e fantástico para adultos.” – diz o Houston Chronicle na quarta-capa deste livro. Eu, digo mais: uma versão em papel de um filme deliciosamente assustador de Tim Burton.

Não à toa, A Mecânica do Coração teve seus direitos vendidos para o cinema e se transformará em breve num filme de animação em parceria do autor com o diretor Luc Besson. Fica a dica porque coisa boa virá, fato!

A Mecânica do Coração é um conto de fadas, mas sem fadas. É uma história sombria ocorrida no final do século XIX e que em suas primeiras páginas tem a narrativa e o ponto de vista de um bebê! Só que este bebê, chamado Jack, nasceu no dia mais frio do mundo e, por isso, seu coração está congelado. Numa manobra arriscada e inovadora,  a parteira resolve substituir o coração do menino por um relógio cuco, que irá bombear o sangue para seu corpo. A partir daí, Jack é avisado: apaixonar-se é um risco altíssimo, seu coração não aguentaria e ele poderia morrer.

Não se assuste se nas quase duzentas páginas nós acompanharmos a vida de Jack desde bebê até os sete anos, quando ele conhece a pequena cantora e se apaixona. Ele passa a procurá-la em todos os lugares, se matricula, aos dez anos, numa escola, mas somente aos quatorze anos ele finalmente encontra Acácia. E o livro termina com ele já com dezoito anos. Embora pequeno, não é um livro que recomendo que se leia rápido, pois o gostoso é absorver cada frase nele escrita, pois a narrativa é um poema (comumente conhecido como poesia em prosa), como pode ser observado em: “Voltar à época em que eu amava sem estratégia, quando eu investia de cabeça baixa sem medo de esbarrar nos meus sonhos” ou “Quero tirar a máscara de morcego romântico. Quero amor à luz do dia.”

A bem da verdade, tanto o estilo fantástico beirando o absurdo quanto a narrativa me lembra meu próprio livro, O Incrível Mundo do Senhor da Chuva, e talvez por isso eu me sinta tão próxima deste Mecância do Coração. Ambos flertamos com o surrealismo fantástico, ainda que sendo real. Há passagens especialmente interessantes que fazem ambas as obras dialogarem: “Nunca corri tão lentamente”, “meu cérebro está tão cansado de permanecer sob meu crânio”, “se tiranossauros sorrissem” e “Ele ri com um riso de criança de bigode.”

Curiosa, fui fuxicar na internet como era Mathias Malzieu, pois no livro não tem sua foto. Com surpresa, vejo que ele é um francês bem apessoado, beirando os quarenta mas com cara de trinta e nove. Numa das fotos ele aparece ao lado de uma mulher lindíssima, com traços espanholados, longo cabelo negro e…epa! Esta é a história do livro! Então eu paro e percebo que Mathias Malzieu, que é popular em seu país por ser vocalista de uma banda de rock, dedicou este livro à namorada; um livro amoroso e carregado de sofrimento, um livro em que ele é Jack em todos os sentidos, em busca de sua Acacita, um livro que, tal como o século XXI, flerta com diversos elementos da cultura pop (Pinóquio, Cinderela, o mágico Houdini e Méliès e, para mim, uma própria recontagem d’O Mágico de OZ, sob o ponto de vista do Homem de Lata, que tudo que quer é um coração novo).

Um livro que é uma sombria declaração de amor. Quer algo mais romântico do que isso?

Glimmerglass, de Jenna Black
Postado por em 8 de novembro de 2011
Glimmerglass (Glimmerglass)
Jenna Black

ISBN: 9788579302381
Editora: Universo dos Livros
Tradutor: Cristina Calderini Tognelli
Ano de publicação: 2011
Páginas: 296
Classificação: 4/5
Preço de Catálogo: R$39,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Simlesmente adorei este livro.

O exemplar chegou aqui como uma grata surpresa neste feriado e me senti tentada a deixar tudo de lado simplesmente por causa da capa MA-RA-VI-LHO-SA. Os capítulos são curtos e fáceis de ler, TODOS os personagens são cativantes e, o melhor: a protagonista é esperta (coisa cada vez mais rara nas publicações de hoje). Conhecemos Dana Hathaway,uma adolescente de 16 anos com sérios problemas familiares, o que a faz ter que se mudar de tempos em tempos e não ter amigos. Sua mãe, Gracy, é alcoolatra e por isso um dia Dana resolve fugir de casa e ir enfim conhecer seu pai, um todo-poderoso da ilha de Avalon. Lá, ela descobre que o mundo das fadas é muito mais do que imaginava e aparentemente lá TODOS querem matá-la.

Muito embora você já tenha lido histórias similares, o fato da “fórmula” estar ali não é um incômodo, primeiro porque a protagonista não é uma songa-monga e todo mundo trai e engana ela o tempo todo (pobrezinha, dá pena!), segundo porque a mãe dela é alcoolatra e isso é um problema sério e que é abordado com muita propriedade (o que é muito bacana, considerando que muitos leitores podem ter esse mesmo problema em casa), e terceiro porque os meninos do tal triângulo amoroso (claro que tem um) não são só bonitos, mas também canastrões e cafajestes, de modo que não dá pra escolher um só (sim, você se apaixona e odeia os dois).

Apesar da narrativa ser em primeira pessoa, isso não cansa a leitura. O texto é bem escrito, com várias pitadas de humor que faz o leitor sorrir enquanto lê: total entretenimento, numa espécie de chick-lit com pitada policial (afinal você não sabe quem nem porque querem matar Dana). A considerar o número de agradecimentos da autora, acho que esse é o tipo de livro que prova que quanto mais pessoas lerem um original antes da publicação, melhor o texto fica. Apesar de ser sobre fadas e ter um quê de fantástico, neste primeiro volume essa temática quase não é abordada diretamente,então para quem está um pouco cansado de literatura fantástica, pode ficar sossegado e ler este livro tranquilamente.

Embora eu tenha gostado muito muito do livro, senti que nos dois terços finais houve um relaxamento da revisão. Também quis saber o tipo de papel em que foi impresso, porque o livro realmente é muito gostoso, mas a informação não estava lá na última página. Mas super recomendo a leitura, principalmente se for num feriado em que você for ficar em casa e quer se divertir sem gastar dinheiro.

Cowboys & Aliens, de Joan D. Vinge
Postado por em 20 de outubro de 2011
Cowboys & Aliens (Cowboys & Aliens)
Joan D. Vinge

ISBN: 9788501095664
Editora: Galera
Tradutor: Rodrigo Abreu
Ano de publicação: 2011
Páginas: 368
Classificação: 2/5
Preço de Catálogo: R$34,90
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

Desde o anúncio do filme e publicação de Cowboys & Aliens, fiquei tentada a ler a história e ver o filme. Assim, fiz uma proposta à editora – Galera – dispondo-me a não só resenhar o livro, mas fazer uma comparação com as três plataformas nas quais ele chegaria ao Brasil: filme, livro e HQ. E a editora topou (obrigada por aceitarem meus projetos loucos! rs). E em vez de fazer uma análise separada, compararei os três juntos, como uma coisa só.

Criada no final do século passado (rs!), a primeira plataforma em que Cowboys & Aliens foi apresentada foi no formato de história em quadrinho. Recomendo a todos que, antes de assistir ao filme, leiam o prólogo da HQ: além de entender melhor o que de fato está em jogo, é, na verdade, o melhor que a história tem. Mais do que uma mera fantasia surrealista de bangue-bangue no Velho Oeste norte-americano com uma invasão extraterrestre, o que de fato está sendo contado aqui é a real história daquele país, numa analogia à época da corrida do ouro lá pelas bandas da Califórnia/Texas/Novo México – territórios recém conquistados. Por aquelas bandas viviam os índios apache que, de repente, viram sua comunidade ser invadida por homens brancos, que chegaram dizimando suas aldeias e impondo sua língua, sua religião, seus costumes.

Quem são os verdadeiros aliens, então?

O prólogo de Andrew Foley menciona, em tom profético, a Constituição Norte-Americana e o texto se encaixa perfeitamente com as imagens e a figuração. Ponto para o roteiro da HQ, que conseguiu maximizar os momentos de luta e narrar a história nos momentos certos. Ponto também para a tradução, tanto da HQ quanto do livro, pois havia alguns termos típicos daquela época (séc XVIII) que deve ter dado um trabalho chatinho à equipe. Também o trabalho do quadrinista Dennis Calero deve ser considerado, pois apesar do seu traço simples, ele consegue ambientar bem a história, dispondo do espaço dos quadros de maneira adequada a criar as sensações certas durante a leitura (aos fãs do Velho Oeste, ainda rola a clássica cena Homem x ET um de frente para o outro, a ver quem saca a arma primeiro).

A ambientação também está bacana no filme, apesar das interpretações insossas do trio principal Daniel Craig, Harrison Ford e Olivia Wilde. Não exagero quando digo que a impressão que se tem é que os três não se deram ao trabalho de interpretar: os três têm a mesma expressão (na verdade, a falta dela), como se a história e o background de seus personagens fossem os mesmos. Assim, o trio principal fica com a mesma personalidade, e isso não convence nem mesmo um leigo de cinema. Quem chama a atenção são os coadjuvantes, aquela galera que você nem sabe o nome. Os atores que fizeram o Doc e o Percy pareciam realmente estar trabalhando neste filme. Mas achei a adaptação foi bem bacana, transportando a história para as necessidades visuais do público do século XXI, transformando-a numa verdadeira jornada do herói, na qual o lobo-solitário Jake Lonergan tenta buscar seu passado e, ao mesmo tempo, está numa missão de resgate às vítimas e também está atrás de seu próprio propósito de vida. Aos estudantes e aspirantes a escritor, o filme é uma ótima dica para analisar os pontos da jornada do herói: facilmente você identifica o herói (dã!), o vilão, o camaleão, a missão, a negação, a redenção, as reviravoltas. Fica a dica.

O que eu não entendi, mesmo, foi pra quê escrever um livro. Apesar do bom trabalho editorial no Brasil, me pareceu meio demais este livro, em especial porque ele foi baseado no roteiro do filme (lembra-se de que a película foi baseada na HQ?) que foi escrito por cinco pessoas! O que acontece com o livro é que ele tem pouco ritmo, pois não acompanha a agilidade do filme nem as sacadas da HQ. Também me surpreendeu que a palavra “alien/alienígena” só apareça umas vinte vezes no romance, e ainda assim nas últimas cem páginas. Até lá, os aliens são chamados de demônios. O.ô Entretanto, é uma boa leitura para quem quer, como eu, comparar o mesmo assunto nas três plataformas. Lendo-o, você enxerga direitinho o esforço da autora Joan D. Vinge em adaptar recomendações que provavelmente deveriam estar no roteiro original, como, por exemplo, o tipo de sensação ou de pensamento que o personagem X estaria sentindo para ter aquela expressão numa determinada cena. A exemplo: quando Doc decide ir em busca de sua mulher, Maria, o livro conta a história dele, de como eles se conheceram e o porquê dele estar tão infeliz em Absolution (que no filme tem outro nome). Este momento no filme dura dois segundos e o expectador entende o que o personagem sente, mesmo sem esta informação, mas no livro dura duas páginas, ambientando o leitor para enxergar os personagens em outra perspectiva.

O livro, pra mim, passa a ser um instrumento de exercício para quem quiser se aprofundar nesta área de adaptação cinematográfica ou roteirização. Quem tiver disposição, fica a dica de comparar os três e aprender com eles.

Orgulho e Preconceito e Zumbis, de Jane Austen e Seth Grahame-Smith
Postado por em 13 de outubro de 2011
Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies)
Jane Austen e Seth Grahame-Smith

ISBN: 9788501077288
Editora: Intrínseca
Tradutor: Luiz Antonio Aguiar
Ano de publicação: 2010
Páginas: 318
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

A obra original foi a minha primeira experiência com livros em inglês alguns anos atrás, e finalmente pude perceber o porquê de Jane Austen (1775-1817) continuar fazendo sucesso até hoje. Orgulho e Preconceito (escrito em 1797, embora não publicado até 1813) resume a essência das histórias de amor literárias dos finais felizes, um relato de uma era onde a salvação da mulher dava-se apenas através do casamento com um homem que lhe desse um sobrenome digno. O original, portanto, pode parecer para alguns como uma torturante releitura de qualquer novela das seis. Poderia.

Há três razões, então, para se ler Orgulho e Preconceito e Zumbis: (1) Jane Austen é A escritora de romances, e essa é sua obra-prima que até hoje inspira cineastas, teatrólogos, estudiosos, feministas e outros almejadores do sucesso através dos romances; (2) por ter retratado tal época, o livro é lotado de críticas sociais ao modo de vida sem estimativas de felicidade para as mulheres (Alguém falou em finais felizes? Pois bem…), expostos principalmente através da percepção da personagem Elizabeth Bennet; e (3) se ainda parece uma leitura enfadonha (que não é, por sinal), adicione uma peste de zumbis carniceiros e transforme metade do elenco da história em ninjas e serviçais da Nação Britânica para defender os sobreviventes – dando destaque, é claro, para a destreza das cinco Srtas. Bennet – e você tem um deleite sangrento em mãos.

Nem tudo virou alguma espécie de história de terror. Tampouco se trata exatamente de uma paródia, como pensei na leitura inicial. A união de forças entre Austen e Grahame-Smith (1976-) transformou o que já era ótimo em uma trama entusiasticamente mirabolante, surpreendente, e por que não dizer, ainda mais emocionalmente intensa. Qualquer discussão é sinônimo de uma luta feroz e mobílias quebradas em Orgulho e Preconceito e Zumbis. Todas as casas de respeito possuem dojos de treinamento, e os passeios no campo viram brincadeiras animalescas como a “Beije-me, Veado”, consistindo em imobilizar o pobre bicho e beijá-lo no focinho, ilustrando, assim, a força física do bravo guerreiro – brincadeira preferida de Lizzy e sua irmã mais velha, Jane. E o que dizer quando sua possível futura sogra é a mais poderosa, rica, intransponível e lendária guerreira que a humanidade e os mortos-vivos já viram em ação? Muito mais divertido que Crepúsculo

O grande destaque se dá à personagem principal, a segunda filha mais velha da família, a Srta. Elizabeth Bennet. Lizzy continua sendo uma mulher à frente de sua época e de tudo que tal era impunha a uma donzela; mas esta Lizzy, de uma Inglaterra infestada por comedores de cérebros, tem um pé na China. Não tendo dinheiro suficiente para treinar as filhas no Japão, o Sr. Bennet, dono de uma propriedade rural em Hertfordshire, leva as cinco donzelas ao treinamento ninja do Mestre Liu – fato, esse, ocorrido antes da história tomar partida. Dessa forma, suas filhas teriam a opção de seguir a vida guerreira ao invés da matrimonial, sendo que, para viverem a segunda, precisariam abdicar da primeira. Além disso, as irmãs mais mortais do século XIX poderiam, assim, se defender sozinhas. Mas é Lizzy quem se destaca como orgulho do papai. Em um mundo infestado de zumbis, onde nenhuma cura é descoberta, um casamento poderia representar apenas uma perda de tempo e um mal desnecessário no amparo da população inglesa. Lizzy, nesta versão, conta com a disciplina dos ninjas chineses, a força bruta de uma guerreira experiente que já arrancou corações que ainda batiam do peito de seus inimigos, e a coragem de quem não teme a morte como quem teme o amor. É nesse ponto, quando o coração passa do estado orgânico para o metafórico, que a heroína e assassina de zumbis percebe-se completamente despreparada com o surgimento do rico, sério, orgulhoso – e um grande guerreiro tanto quanto ela –, Sr. Darcy.

É uma verdade universalmente aceita que um zumbi, uma vez de posse de um cérebro, necessita de mais cérebros.

Adaptação simplesmente fantástica! E para os aficionados justamente por adaptações, um filme desta versão assombrosamente incrível de se ler vem sendo prometido desde 2009, ano de lançamento da versão original em inglês, mas até agora as informações sobre direção e convocações de atores é incerta. A atriz que interpretou Elizabeth Bennet na versão original, Keira Knightley, deu pra trás na atuação da obra reinventada, mas dispôs-se a colaborar na produção. Eu bem que gostaria de dizer “em breve, num cinema perto de você”…

Mesmo neste mundo louco e infestado de comedores de cérebro – crítica óbvia por parte do inventivo coautor à ganância da população, daquela época e de hoje em dia –, Orgulho e Preconceito e Zumbis nos traz em grande parte da obra um amadurecimento das relações, especialmente por parte dos enamorados Darcy e Lizzy, que carece nos conturbados relacionamentos do mundo moderno, problemático o suficiente sem a presença dos transeuntes desalmados (!). O livro é indicado tanto para os fãs de Austen quanto àqueles que jamais pisaram neste território, contando com um bônus aventureiro que poucos desgostariam.  Uma coisa é certa: Austen e Grahame-Smith fazem uma dupla e tanto, assim como Sr. Darcy e Srta. Bennet sempre fizeram, e que agora vieram pra marcar mais do que nunca, com amor, espadas e entranhas!

Noah Foge de Casa, de John Boyne
Postado por em 6 de outubro de 2011
Noah Foge de Casa (Noah Barleywater Runs Away)
John Boyne

ISBN: 9788535919493
Editora: Companhia das Letras
Tradutor: Eduardo Brandão
Ano de publicação: 2011
Páginas: 200
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$33,50
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

Noah é um garoto de oito anos que, por algum motivo incógnito, resolve fugir de casa certa manhã. Ele passa a caminhar por cidades vizinhas, sem rumo, enquanto conversa com estranhos e se aventura pelo desconhecido. Até que, por indicação de um burro falante e uma árvore misteriosa, acaba entrando em uma loja de brinquedos abandonada. Lá, encontra o solitário velho que mora e cuida do estabelecimento, ainda que quase não receba clientes. Os dois começam a conversar e contam suas histórias um para o outro, puxando a narrativa que envolve toda a obra.

Essa é a premissa do recém-lançado Noah Foge de Casa, quarto livro publicado no Brasil de John Boyne (O Menino do Pijama Listrado). Assim como todas as traduções até agora, “Noah” é protagonizado por um menino em uma idade inocente, que acaba lançado no mundo e realizando descobertas. Esse livro, no entanto, é a primeira fantasia do autor, caracterizando-se também como primeiro infato-juvenil. Enquanto esse volume traz animais e portas falantes, os outros mostravam apenas histórias de gente comum, geralmente ambientada em alguma época antiga. “Noah”, na verdade, lembra fábulas muito conhecidas, como Alice no País das Maravilhas. A temática é a mesma.

Um dos mistérios que envolvem esse livro é, afinal, a razão que levou Noah a fugir de casa. Enquanto conversa com o homem, o menino evita falar sobre isso e muda de assunto sempre. No entanto, ao longo da trama, enquanto as histórias dos dois personagens são contadas, seus sentimentos se entrelaçam e Noah acaba revelando seus motivos, e os dois descobrem que são mais parecidos do que parecem e que Noah tem uma importante decisão a tomar.

Uma das coisas chatas do livro é ele ser tão curto, com menos de duzentas páginas. Como se trata de uma fábula, contudo, isso parece ser o necessário. Assim como toda a obra de Boyne, Noah Foge de Casa é uma linda história. Mais que isso, seus livros tem uma narrativa tremendamente gostosa. Fácil de ler, sem descrições exageradas e ainda assim profundo. John Boyne é, sem dúvida alguma, um mestre ainda vivo e um dos meus cinco escritores preferidos. Seu novo livro já estava sendo aguardado por mim. Para quem gosta de escrever, assim como eu, ele é uma inspiração fácil e um escritor para ser lido e admirado.

A Tormenta de Espadas, de George R. R. Martin
Postado por em 5 de outubro de 2011
A Tormenta de Espadas - Livro 3 da série As Crônicas de Gelo e Fogo (A Storm of Swords)
George R. R. Martin

ISBN: 9788580442625
Editora: LeYa
Tradutor: Jorge Candeias
Ano de publicação: 2011
Páginas: 884
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$54,90
Onde comprar:
Submarino | Saraiva | Cultura

A Tormenta de Espadas foi um livro que eu quis muito, muito, muito terminar por dois motivos:

 1 – Porque a história é incrível.

 2 – Por que o livro é enorme e eu estou há 10 dias com dores nas costas.

Não sei se vocês tiveram a oportunidade de ver o livro em alguma livraria ou com alguém, mas acreditem em mim: ele é MESMO enorme. Tão grosso quanto o volume único de O Senhor dos Anéis e mais largo e comprido, foi um saco andar com ele tantos dias. Maaaaaaas essas são reclamações insignificantes se formos comparar com a história incrível que eu citei ali em cima. Podem acreditar quando eu digo: A Tormenta de Espadas é o livro do ano.

Atenção! Spoilers à frente.

A história começa num ponto próximo ao término da última, vou dar algumas informações por tópicos para vocês recordarem, porque eu tive uma tremenda dificuldade:

  • Tyrion Lannister está ferido e mutilado, após vencer a Batalha da Água Negra, em Porto Real;
  • Jaime Lannister foi libertado por Catelyn Stark mediante acordo em que deverá ser trocado por suas duas filhas, Arya e Sansa. Tem como guarda Brienne de Tarly, cavaleira juramentada à Sra. Stark;
  • Sansa Stark permanece refém em Porto Real, mas não está mais prometida ao Rei Joffrey;
  • Arya Stark fugiu de Harrenrral com seus companheiros Gendry e Torta Quente, sua pretensão é encontrar a mãe, Cately, em Correrrio;
  • Catelyn Stark encontra-se em Correrrio, aguardando o retorno de Robb Stark, o Rei do Norte;
  • Robb Stark venceu todas as suas batalhas até o momento, mas perdeu justam ente o norte para os Greyjoy;
  • Bran e Rickon Stark são considerados mortos por sua família. Bran segue com os irmãos Reed para o norte à procura do Grande Corvo. Rickon está escondido com Osha.
  • Jon Snow está infiltrado com os selvagens que pretendem atravessar a Grande Muralha do Norte e invadir os Sete Reinos;
  • Stannis Baratheon permanece em sua pretensão de ser Rei de Westeros;
  • Daenerys Tangaryen segue em sua procissão rumo a Westeros para recuperar o trono que foi usurpado de sua família.

Já estão sem fôlego? A cada volume que sai a história fica mais complexa, com mais personagens e mais mistérios. Nada é o que parece, ninguém é confiável e personagens queridos vão morrendo como se estivessem na Faixa de Gaza. Mas há boas surpresas também, ganhamos dois novos pontos de vista: Sam e Jaime Lannister. O ponto de vista do Sam é chaaaaaaato, leeeeento, demora a vida toda pra passar. Já a história do Jaime é deliciosa. Fez-me gostar dele pra caramba. Incrível como cada vez mais Lannisters entram no meu hall de personagens favoritos.

A história vai ficando cada vez mais sombria e triste e muitos personagens importantes morrem nesse livro, podem preparar os lencinhos porque algumas mortes vão trazer lágrimas. Mas há, também, mortes muito esperadas. Ainda bem que é ficção, pois senti prazer em ver alguns personagens indo pro beleléu. Já vai tarde. Mala.

Há também o alívio cômico muito bem vindo proporcionado, principalmente, pelos irmãos Lannister. Jaime é muito mais engraçado que Tyrion, vejam que coisa. Mas o carisma e a inteligência do anão são imbatíveis. Continua sendo o melhor personagem da série, mas tem agora alguns concorrentes fortes: o próprio, já citado, Jaime Lannister (é, caí de amores por ele mesmo), Jon Snow (um fofo, seria o príncipe em qualquer conto de fadas), Daenerys Tangaryen (a única que merece de verdade ser rainha daquela bagunça) e, correndo por fora, Brienne de Tarth.  Esses personagens são os que tem o maior destaque na trama do livro e mesmo dividindo os holofotes com outros como Catelyn Stark, Sor Davos, Arya e Sansa, dão graça à história.

As surpresas continuam imbatíveis, impossíveis de serem previstas mesmo pelo leitor mais inteligente. Se você gosta de fortes emoções e realidade nua e crua, essa é a sua série. Minha única reclamação é referente às histórias de Sam, como já comentei, e Bran. Os capítulos se arrastam e cansam em determinados momentos. Creio que tenham um sentido no fim de tudo, mas ainda não descobri qual. Mas isso é coisa pequena perto da magnificência da história. A Tormenta de Espadas é o melhor da série até agora. De verdade.

Enfim, eu disse que a resenha ia ser longa, mas eu tô abusando, né? Pra concluir, como não podia deixar de ser, recomendo MUITO a leitura d’A Tormenta de Espadas. Duvido que esse ano seja lançado livro melhor e, mesmo pesando mais que um pinscher, vale a pena carregá-lo por aí. Nota máxima!

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