YA Books
Sobre os novos livros brasileiros
Postado por em 3 de janeiro de 2012

Não venho aqui para discutir os méritos de ninguém, nem acho que devemos comparar seja quem for com quem quer que seja. Mas vivemos – no caso, eu – aqui, dissertando sobre todos os autores para jovens adultos de modo que sempre tentamos aclamar aqueles que estão em voga e/ou nos agradam mais. Não esqueço que existem outros, uma infinidade de autores que só aumenta a cada dia, mas como posso querer falar de alguém que não conheço? É o tipo de coisa que aplico em tudo na minha vida, não querendo parecer boa moça.

Sou daquele tipo que acredita que você precisa, sim, experimentar algo para dizer que não gosta. Do tipo que lê um livro/vê um filme nem que seja só para poder falar que é um lixo. Eu gosto de ter minha própria opinião sobre quase tudo e, nem por isso, acho que estou sempre certa. O que acontece é que preciso de bons argumentos para poder sustentar qualquer que seja o meu ponto de vista.

Dito isto, assumo: muito pouco do que leio/tenho lido é proveniente da terra brasilis Não é preconceito, só se for um bem mascarado, apenas falta de interesse. Uns meses atrás, vi tanta gente falando de alguns livros brasileiros que até me interessei por eles, mas quando entro na livraria e vejo algum que eu queria há tempos e com um preço menor do que o outro, é meio difícil dizer não. Foi assim com Todas as Estrelas do Céu (Enderson Rafael): li dezenas de resenhas, muita coisa boa… No dia que o vi na Saraiva fiquei doida, mas o preço estava um tanto quanto salgado e acabei trocando-o por um outro (que agora não me recordo qual).

E, parando para pensar e contando os livros da minha estante, são pouquíssimos os títulos brasileiros. Dos meus quase cem livros, divididos em duas estantes, apenas oito são brasileiros (considerando apenas os títulos “não-técnicos” ou seja lá o nome que eles recebem). Um deles, ainda por cima, é emprestado. O que “me incomoda” é que todos eles são realmente bons e, ainda assim, acabam ficando “desmerecidos” entre tantos ingleses, norte-americanos e de outras nacionalidades.

Sábado à Noite, o tal livro emprestado, foi uma vida até ser lido. Sempre quis – e ainda quero – compra-lo, já cheguei até a ganhar um marcador do livro em uma promoção via twitter feita pela Babi Dewet (a autora). Minha prima, por sua vez, comprou seu exemplar na Bienal de São Paulo, no ano passado, e é essa a cópia que continua em meu poder, desde abril. A leitura é altamente agradável, mesmo para mim que prefiro descrições à diálogos e a história não foge da nossa realidade. Porque tá aí uma coisa que me irrita: brasileiro que decide inventar uma história totalmente irreal para o que vivemos. Nosso ensino médio não é como o norte-americano, nossa cultura – querendo ou não – também é bastante diferente. Alguns livros, ouso dizer, conseguem transformar a história mais banal em uma suposta ficção científica e daí… *onomatopeia que indica falha* Não sou obrigada!

Outro dia, por um momento do acaso, recebi pelo correio uma cópia de Mundo de Vidro (Maurício Gomyde). Por conta da faculdade, acabei enrolando para lê-lo. Merece uma pequena introdução: sabe como cada pessoa tem um ritual para decidir se um livro merece ou não ser lido? Por exemplo, tenho uma amiga que diz que o livro só vale à pena se te conquistar nas seis primeira linhas. Outra, diz que lê a última oração. Eu gosto de dedicatórias/prefácios/introduções. Quando o livro não tem, me atenho à primeira página. Mundo de Vidro fugiu um pouco à regra: o prefácio é chato. Muito chato. Extremamente. E quase me fez desistir do livro. Sorte minha ter sido persistente. O autor, assim como eu, vive em Brasília e, embora a cidade do livro não tenha nome, na minha cabeça ela se passou em Brasília, com o metrô, as entrequadras e todo o resto. Foi lindo, lido e devorado. Amei e agora habita minha prateleira de favoritos (a que fica bem do lado da cama).

Também nos favoritos, figura um livro um pouco polêmico: Mil e uma noites de silêncio (Mayra Dias Gomes). Depois de Fugalaça, Mayra ficcionou tudo e construiu uma história envolvente e, oposta aos outros dois que são extremamente leves, densa. Para mim, foi aquele tipo de leitura que você não consegue ler e, ao mesmo tempo, não consegue parar. Posso ter lá todos os meus problemas com o livro/a autora/o mundo, mas não posso mentir no quanto aprecio o livro desde as ilustrações até o ponto final.

Vêem como é? Até hoje, dos livros brasileiros que comprei/ganhei/peguei emprestado, não me arrependo de um. E olha que nem sempre fico por aí buscando indicações e resenhas positivas (visto que não acredito muito nas resenhas de livros brasileiros porque tenho a impressão de que os blogueiros têm medo de “ofender” o autor, e eu sou um pouquinho mais destemida – já até saí na briga com uma autora citada aí por conta disso).

Mas se alguém quiser me indicar/presentear, aceito de bom grado e dou minha opinião mais sincera. Fiquem à vontade!

Vazio literário, existencial e completo
Postado por em 10 de novembro de 2011

Os livros são refúgio, mas como em tudo na vida a gente acaba escrevendo nossa própria história que envolve tudo que a gente vive. O ato de ler um livro para mim, por exemplo, tem um peso muito grande em vários momentos. Da mesma forma, fatores externos são capazes de influenciar a minha história com o livro (não sei se estou conseguindo me fazer entender, mas juro estar tentando). Há livros que, da primeira vez que li, não passaram de uma experiência desagradável ou mesmo “desnecessária” e, meses (às vezes, anos) depois me proporcionaram algumas das melhores histórias que eu já li.

Não sei se isso acontece com mais alguém, mas eu sou completamente influenciada por tudo que acontece na minha vida. Se eu estou passando por um período ruim, minha imunidade vai parar no pé, eu tenho dificuldade para comer, dormir e outras atividades “comuns” assim. Já quando estou feliz, tenho a sensação de que consigo abraçar o mundo. Em tempos difíceis minhas leituras emperram. Nada sai do lugar, nada progride. Portanto, anuncio: estagnei.

Nada se move nessa cabeça além das mesmas coisas que já não têm mais serventia. Não existe mais concentração e, com isso, fica impossível conseguir emergir em qualquer que seja o conteúdo. Peço desculpas, meu raros (e caros!) leitores, mas essa é uma coluna vazia. Nos próximos dias, assim como aconteceu nas últimas semanas, minhas leituras serão, no máximo, técnicas e obrigatórias (imposições da vida de estudante universitária).

Espero poder, na próxima coluna, trazer uma realidade totalmente diferente dessa que apresento agora. E, mais do que isso, peço ainda mais desculpas por desabafar e abrir tudo, assim. Até breve!

Depois do sobrenatural…
Postado por em 14 de outubro de 2011

Se há pouco mais de dois anos Crepúsculo emergia nas telas do cinema e trazia uma legião de fãs ensandecidas que levavam as histórias tão a sério, ao ponto de deixarem morder como “legítimos” vampiros (dúvida?) não tem muito tempo que fomos “convidados” à reviver todas as histórias que fizeram parte de nossa infância. Mas de um jeito um pouco diferente.

Depois de toda a questão do crescimento do número de sagas e trilogias lançadas, temos agora a revisão dos famosos contos de fadas e “historinhas da Disney” (sim, eu sei que não foram criadas pela Disney, mas ninguém pode negar que foram difundidas mundialmente pela empresa). Posso estar errada, mas creio que, no Brasil, tudo começou com A Garota da Capa Vermelha.

Acredito que, mesmo sem ler nada do livro, só pela capa, qualquer pessoa que teve infância cercada por essas histórias faria identificação instantânea do conto. Enquanto na versão infantil, a menina que sai para levar doces à vovozinha é retirada com vida de dentro do lobo, a releitura traz todo um momento CSI da “garota da capa vermelha” em busca do culpado pelo assassinato de sua irmã. Como indica a própria sinopse, “A Garota da Capa Vermelha é uma nova e arrepiante versão do clássico conto.”

Agora, alguns meses depois, foi lançado no Brasil, A Fera (Beastly), a versão “adulta” de A Bela e a Fera. Assumo: estou falando sem saber, visto que não tive oportunidade de ler o livro. Não mentindo, li o primeiro capítulo, disponível no site da editora. A principal diferença que notei entre os dois livros, é que neste ocorre uma adaptação temporal bem demarcada desde o início. O “mauricinho” que depois se transforma em fera é um estudante, normal, como eu e você somos ou fomos um dia.

O apelo desses livros é bastante óbvio pra mim: como transformar uma história infantil em algo que agrade um público que já não se interessa por isso? Simples. Adicione à ela qualquer linguagem atual, “cresça” os personagens, dê a eles um pouco de tecnologia ou coisas do cotidiano e, voilá, está formada sua narrativa. O resto é só reconstruir o que já estava pré-estabelecido (o enredo, por assim dizer) e torna-lo intrigante. Não me entendam mal, de forma alguma estou criticando quem quer que seja que escreve esses livros.

Acredito em todo o mérito desses autores, afinal eles realmente atingiram os objetivos propostos. A diferença mora no que eu, como leitora, considero interessante de ler. Eu, pessoalmente, tenho problema com histórias muito semelhantes e, vira e mexe, fico indignada com alguns autores “sem criatividade”. Claro, eu saio em busca de quem surgiu primeiro para poder criticar a pessoa certa, e me reservo ao direito de poder gostar mais do que veio antes/depois pela construção narrativa.

Julgando o livro pela capa
Postado por em 19 de setembro de 2011

Verdade seja dita: estou em débito gigantesco com minhas leituras. Todas. As por prazer e as obrigatórias. Ando impaciente, essa é a verdade acima da primeira verdade. Tenho preguiça do tempo que já desistiu de passar e daquele que me sacaneia e passa voando quando estou em um momento bom. Mas acho que tenho dado crédito demais à esse safado, visto que dediquei um post inteiro (dois meses atrás) tentando ajudar os leitores a driblarem o tempo.

Ando namorando diversos livros por aí. Tudo que me resta já que a falta de tempo, combinada com o excesso de preguiça e a falta de dinheiro, não me deixa passar disso. Um flerte inocente com uma capa bonita, uma história interessante, aquele pensamento de “quem sabe um dia”…

Convenhamos: as capas mais bonitas são as de livros para jovens adultos. É o primeiro passo para a conquista. Sim, alguns de nós são extremamente superficiais e julgam o livro pela capa (eu mesma, assumo, já fiz isso várias vezes) ou mesmo se apaixonam pela capa, antes do conteúdo. Ou só pela capa e não pelo conteúdo. Diversas as variáveis.

Pois bem. Uma coisa que tem “me divertido” há algum tempo é a busca pelas capas de livros futuros, aqueles que ainda vão ser lançados. Principalmente daqueles que estão em algum tipo de série/trilogia. E, confesso, algumas vezes eu não me dou conta de algum detalhe interessante que relaciona a capa e a história de uma forma não-óbvia.

Os livros da série Destino (Ally Condie) têm as capas das cores das pílulas que as pessoas da sociedade carregam. A primeira foi verde; a segunda será azul. E eu só notei isso quando li no blog d’A Sociedade um fã perguntando para a autora. O mesmo acontece com as capas de Feios: elas acompanham as transformações que os personagens passam ao longo da história (a cara lavada da menina no primeiro livro, a segunda com o casalzinho, a terceira com os rostos “tatuados”).

    

Daí vem um outro detalhe: as capas não precisam ser cheias de imagens e coisas do tipo. Em tempos difíceis como esses “menos é mais” e as capas mais minimalistas ou clean, vêm ganhando espaço. Cito, novamente, Destino. É simples, básica. Ou a edição inglesa de Looking for Alaska (disparadamente a minha preferida). Mas cito, também, as capas de Jogos Vorazes, que além de serem básicas, têm um diferencial: a textura. Tanto o primeiro quanto o segundo livro trazem a ilustração da capa com relevo.

Relevo e “frescurinhas do tipo” valem menção honrosa.  Exemplo mais do que merecido: Derby Girl. Sério! A imitação de uma bandagem de curativo pela capa me fez rir muito e achar a ideia muito bem pensada. Todos os machucados causados pelo roller derby tão bem camuflados ali.

    

Claro, outras coisas convencem o leitor a comprar um livro bem além da história. Aquelas diagramações interessantes, como a de Annabell & Sarah cujos “capítulos-diário” são em folhas pretas, enquanto a história, em sim, está nas folhas comuns, despertam mais vontade de ler e comprar (aliás, vale mencionar que eu não gostei desse livro. Exceto da diagramação, da capa e dos “capítulos-diários”. Para mim, o livro poderia ter sido só eles e eu seria bem mais feliz).

Jovens adultos, brasileiros e de épocas diferentes
Postado por em 17 de agosto de 2011

Já havia escrito, logo no “lançamento” dessa coluna, sobre a dificuldade de classificar os livros YA. Como justificativa, escrevi que a “juventude”, a transição entre adolescente e adulto, é uma época confusa, de extremos e coisas afins. E, durante todo o tempo em que venho escrevendo aqui, já reparei na minha própria dificuldade de escrever sobre YAs brasileiros. Por falta de conhecimento – digamos assim – e, principalmente, por não conseguir fazer isso de forma interessante à ponto de convencer alguém que um certo livro mereça ser lido.

Muitos, repito, muitos livros bons para jovens adultos têm sido escritos por brasileiros, jovens ou não. Ficçãog, não-ficção, sobrenaturais, romances… Mas lá em 1992, quando essa colunista aprendia a brincar com suas primeiras Barbies, Maria Mariana juntava fragmentos de diários antigos, algumas amigas e o apoio do pai e lançava Confissões de Adolescente. O livro, que foi uma peça de teatro e também um seriado, caiu em minhas mãos sem querer, e foi uma boa hora gasta de leitura.

Sim, boa “hora”, singular e pequeno. O livro é curto e compacto (digo quanto ao tamanho físico, esse segundo). São menos de 100 páginas de leitura agradável, entre depoimentos, nota dos editores e a introdução escrita por Domingos Oliveira, o pai da autora.

Então, porquê eu resolvi que esse livro merecia tão grande destaque? A abertura, a nota dos editores, que reproduzo, em partes, aqui:

Adolescer é coisa tão complicada que a própria palavra vem de doer, de adoecer. (…) Toda literatura sobre o tema (que só nos últimos 50 anos deve pesar toneladas) converge em certas questões (…) sobre a transição, a aventura de cada descoberta, o desabrochar da sexualidade, as mudanças corporais e o imenso salto intelectual com o acúmulo de informações sobre o mundo que marcam essa etapa.

Deu pra ter uma idéia? Tal nota foi, na minha opinião, a melhor definição que eu já li sobre jovens adultos, apesar de estar mais direcionada para os adolescentes. (Vale pensar que, em 1992, os jovens adultos eram chamados de adolescentes; eu, particularmente, considero adolescentes a turminha de 12, 13 anos. Os antigos pré-adolescentes/aborrecentes)

Esse, talvez, seja o único problema do livro. Está “desatualizado”, por assim dizer. Nos quase 20 anos que separam o livro do que vivemos, muita coisa mudou. Internet, velocidade… as coisas acontecem mais rápido e mais cedo do que costumavam acontecer. Veja nossa literatura, como é o foco dessa coluna. Confissões de adolescentes aborda assuntos como o primeiro beijo, a primeira vez, o primeiro baseado. Hell Paris (Lolita Pille), ou melhor, mantendo o foco na literatura brasileira, Fugalaça (Mayra Dias Gomes) fala sobre as várias primeiras vezes, de um jeito completamente diferente do retratado por Maria Mariana.

Não digo que se perdeu a inocência com relação a tudo isso, não pretendo acusar ninguém de banalização, mas essa nova geração já vem de fábrica com milhares de conceitos e conhecimentos, é a geração bem informada (informada até demais, talvez). Quem teve a chance de acompanhar a série (que era exibida pela TV Cultura) ou mesmo de assistir à peça, ou mesmo quem gosta de ter uma idéia de como algumas coisas funcionam para outras pessoas, o livro só tem a acrescentar.

Sobrevivendo aos tempos com livros magros
Postado por em 20 de julho de 2011

Todos os problemas da sociedade moderna poderiam ser resumidos em uma palavra: tempo. Nunca há tempo suficiente para o que queremos fazer, há sempre algo nos esperando impreterivelmente daqui a cinco minutos e, infelizmente, ainda não inventaram um vira-tempo (sente a referência Potteriana implícita) de modo que nossa vida continua sendo controlada e apertada por essa coisinha.

Assim que passamos dos 10 anos entramos em uma fase terrível em que, gradativamente, o tempo livre vai se tornando cada vez mais escasso (exceto quando você decide, sei lá, vagabundear sua vida por aí). Escola, vestibular, faculdade, primeiro estágio, formatura, primeiro emprego, contas, empregos simultâneos… Começamos a vida com cerca de quatro meses de férias por ano, até chegar um momento em que você tira uma semana de férias e vende as outras três para poder pagar o aluguel. Não tá fácil pra ninguém!

A Persistência da Memória, de Salvador Dalí

Creio eu que ninguém vá discordar de que a leitura deve ser encarada com um prazer e, como todo prazer, demanda tempo. Então, o que fazer quando não se tem tempo? Deixar de ler? Pois é, foi o que aconteceu comigo nos últimos meses. Não que eu tenha deixado de ler, mas minha taxa de leitura caiu tão drasticamente que posso imaginar meu Skoob acusando anormalidades. Meu tempo útil nos últimos meses caiu para quase zero, considerando que eu preciso comer, dormir, tomar banho e namorar (itens essenciais na minha lista de sobrevivência), então a solução foi encontrar leituras simples e, preferencialmente, curtas.

Curtas do tipo crônicas. Curtas do tipo contos. Ou simples do tipo que não vai exigir que eu passe dias refletindo sobre algo. Ainda bem que YA é meu gênero favorito (e ouso causar uma polêmica à partir desse comentário). Me rendo aos que dizem que grande parte dos livros YA é vazia. Mas explico que não exatamente assim. Livro sem conteúdo existe em todo e qualquer gênero. Mas confirmo a tendência de que os livros YA – EM SUA MAIORIA – não buscam se aprofundar em existencialismo, reflexões e afins. Trata-se de uma literatura, em grande parte, despretensiosa.

E isso é um ponto extremamente positivo. Vamos pensar pelo lado prático: tenho certeza de que você consegue contar nos dedos quantos são os seus grandes amigos altamente intelectualizados, daqueles que só discutem filme mudo iraniano e só ouvem música clássica. Desculpem, mas eu não tenho paciência para gente assim. Por mais que eu tente, e eu tento, eu ainda acredito que o despretensioso é mais autêntico e, por isso, mais válido.

Lonely Hearts Club (Elizabeth Eulberg) é um livro despretensioso. É uma história clássica das meninas que cansaram de se dar mal nos relacionamentos e resolvem formar um clube de “não vamos namorar”, com um final óbvio e embalado com a trilha sonora dos Beatles. É um livro leve, tranquilo e daqueles que não te deixa dormir até terminar a leitura. No meu conceito, isso é um livro bom.

De modo diferente, Derby Girl (Shauna Cross) também é uma leitura leve. A história da menina rebelde de uma cidade pequena que começa a se aventurar nos ringues de patinação, é capaz de transportar você (e seu sono, diga-se de passagem) para toda a confusão dos patins, indie rock e confusões, sem precisar ser pedante e apelativo. Simplesmente sendo… uma história.

Isso não quer dizer que eu (ou você) deixarei de gostar de leituras que exijam um pouco – ou muito – mais de mim. Só quer dizer que, em tempo de vacas magras, quando seu tempo é contado até para ir ao banheiro, ainda dá para manter um ritmo normal de leitura sem grandes prejuízos ou déficits de atenção à outras atividades das quais sua vida (financeira, amorosa ou estudantil) possam depender.

Para os ocupados de plantão, eu sempre recomendo os livros da Tati Bernardi (A mulher que não prestava e Tô com vontade de uma coisa que eu não sei o que é). Apesar de não serem exatamente livros YA (mas, considere que em um passado não muito distante eu já expliquei por aqui que toda a coisa da classificação de livros é um tanto quanto flexível quando se trata de Young-adults), as crônicas dessa brasileira poderosa aliviam stress, desafogam o peito e podem ser lidas uma a uma, sem prejuízos à compreensão. Sou totalmente contra deixar de ler, por isso, sou a favor de toda e qualquer alternativa que vier. Nem que isso signifique ter que ler no ônibus, apertado, voltando para casa ao fim de um dia cansativo.

O futuro é serial
Postado por em 22 de junho de 2011

Autores, editores e agentes literários em geral podem ter demorado um pouco, mas caíram na real à tempo de conquistar um filão. As sagas, séries e afins são a pedida da vez, ainda mais em tempos de internet. Por quê “em tempos de internet”? Explico: antigamente, o que reunia um grupo de seguidores de um filme, banda, livro e afins eram os fã clubes, que acabavam sendo meio limitados por conta de espaço, distância e afins. Com a internet, a difusão das fan pages é um fenômeno. Quer dizer, tem fan page para tudo (absolutamente tudo) que você imaginar.

Dessa forma, pessoas e pessoas passam horas em frente ao computador discutindo méritos,características, reviravoltas e o que mais vier pelo caminho de suas histórias favoritas. HarryPotter, ouso dizer, foi um dos primeiros beneficiados com isso (aviso aqui que estou pensandonos livros surgidos já em tempos de internet, caso contrário, obviamente teríamos outrassagas como O Senhor dos Anéis e afins). A quantidade de sites, fan fics e fan pages dedicadasao bruxinho e sua turma é incrível.

E, claro, não são só as sagas que contam com esse público, mas temos de convir que quanto mais livros, mais histórias. Quanto mais histórias, mais detalhes a serem debatidos. E, não sei quanto a vocês, mas ultimamente tenho tido um pequeno probleminha em ler livros “solitários” (aliás, existe um nome para falar de livros que não fazem parte de saga? Ou eles são só livros mesmo?). Entre minhas últimas leituras estão Destino, Especiais e JogosVorazes, todos com suas devidas continuações (ou antecedentes). Li também Lonely Hearts Club e Sábado à Noite (finalmente!) e acabei criando para eles um tipo de associação.

Ou seja, acabamos condicionados a esperar por mais. Esperar pela continuação ou por algo semelhante que supra a nossa necessidade do que um único livro não foi capaz de cobrir. Não estou querendo tirar o mérito dos livros avulsos, de forma alguma. Mas quando um livro é bom, muito provavelmente ele vai deixar aquele gostinho de quero mais. É um dos motivos pelos quais nós o consideramos bom.

E aí entra uma outra coisa: nunca, jamais, em hipótese alguma, os autores deveriam serpermitidos de escrever continuações ruins para nossos livros favoritos. Não tem nada maisfrustrante do que ansiar por um livro, compra-lo, sentar para ler com aquela paz budista e sair frustrado. Experiência própria, dá vontade de ir atrás do autor e pedir para ele voltar atrás detudo que escreveu.

Dessa forma, é importante saber a hora de parar. Entendo o mundo capitalista que diz que enquanto algo é rentável nãotem porque deixar de fazê-lo, mas sou à favor de pessoas que primam pela qualidade, ao invés da quantidade. Sou contra toda e qualquer forma de destruição de alguma coisa boa (não que eu não seja contra a destruição de coisas ruins, é que elas simplesmente não me importam. Fora que o que eu acho bom, alguém pode achar ruim e isso gera uma bola de neve).

O que eu vejo acontecer no mercado editorial YA dentro de poucos anos? Um crescimento ainda maior do número de séries/sagas/afins, com um marketing ainda maior (alguém já deu uma passada no site de divulgação de Destino, por exemplo? Tem até um aplicativo que “simula” a escolha do par, gente!) e milhares de fan pages por aí.

E não que isso seja ruim, de forma alguma. Mas em alguns momentos precisamos ter em mente que as coisas tem um fim. Que às vezes é só isso e nada mais. Que, por mais que possanão parecer, aquilo era tudo que deveria ser dito. Assumo: se um dia meu livro saísse da minha cabeça eu gostaria de que ele fosse filho único, sem continuações ou antecedentes. Mas também não sei se conseguiria colocar em um só volume a história mirabolante que venho pensando há algum tempo.

Das tragédias e livros YA
Postado por em 7 de abril de 2011
Sei que nas últimas semanas minha coluna não tem feito juz ao tema que tem. Mais de uma vez o fator YA virou segundo plano para divagar sobre alguma coisa aleatória. Aleatória mas, ainda assim, relacionada. Acontece que é meio impossível deixar passar, no dia de hoje, tudo que aconteceu. Moro longe do Rio, muito longe mesmo, não conheço nenhuma das pessoas que teve seus entes queridos feridos ou mortos naquele colégio.
Acontece que os livros, principalmente aqueles que são como os YA, são feitos principalmente para distração. Para que o leitor possa se transportar para uma outra realidade, embarcar numa outra vida que não a sua. É difícil encarar a realidade em tempo integral, todo mundo sabe disso. Isso explica o fato de tantos livros sobrenaturais fazerem um sucesso tão estrondoso. A narrativa sobrenatural, por mais que possa ser dura e tudo mais, é ficção. Assim como a grande maioria dos livros para jovens adultos.
Pode-se dizer que isso acontece por um único motivo: essa fase de transição, em que a gente é adulto mas se comporta como criança, já exige demais, já é dura demais. Tudo que a gente quer, nessas horas, é poder fugir da realidade. É poder mergulhar em uma história que, por mais que tenha semelhanças com a nossa, em algum momento tudo gira 180° (porque voltas de 360° retornam ao ponto inicial, embora possamos entender que nada é o mesmo que há um segundo atrás, mas enfim, sem divagações inúteis) e a história se dissocia da realidade.
Há algum tempo escrevi aqui uma coluna que questionava justamente o motivo de lermos. E acho que essa semana eu acabo por responder o que eu mesma quis saber. A gente lê para esquecer do mundo, para esquecer alguma coisa que nos incomoda naquele momento. A gente encontra nos livros um jeito fácil de fugir de tudo sem sair do lugar. A gente encontra nos personagens tudo aquilo que queremos – ou não – ser. A gente encontra no autor um leitor de mentes que escreve exatamente aquilo que nunca conseguimos passar para o papel. A gente encontra na leitura o porto seguro que mantem nossos cérebros distraídos do que está acontecendo e nos afetando de verdade.
Não estou dizendo que ler vai ser a solução para todos os problemas, mas ler – seja um romance, um drama ou um YA – pode te acalmar, te ajudar a pensar antes de ter uma atitude precipitada. Ler pode evitar brigas, pode acalmar corações aflitos, pode amenizar as dores dos dias difíceis. E, sabe, na verdade não precisa ser cult, profundo, aclamado. Só precisa agradar.

Tenho a impressão de que um dos problemas é que incutimos na cabeça que o livro para ser bom tem de dar trabalho pra ler. (…) E por favor, pelo amor de Deus, parem de fazer pouco caso daqueles que estão lendo e curtindo um livro. Ninguém sabe que tipo de esforço isso representa para o leitor. (Nick Hornby na Introdução do livro Frenessi Polissilábico)

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