Mercado Editorial
Independentes e comprometidos ou a alquimia na transformação de um original em livro
Postado por em 10 de agosto de 2011

A Tábua de Esmeralda

Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia.
Trecho da Tábua de Esmeralda

Enquanto a vida ferve lá fora, em plena madrugada de sábado, ele termina o último parágrafo de seu romance, iniciado anos atrás. Recluso durante todo esse tempo, foi determinado. Leu e releu inúmeras vezes, trocou palavras, experimentou novas orações, reescreveu parágrafos, consultou dicionários variados e, enfim, pode dar-se por satisfeito: ali está sua grande obra. Agora, suas dúvidas são outras: enviará este original para uma editora grande/tradicional, ou optará por uma pequena/independente? Afinal, qual o critério utilizado pelas editoras para avaliar um original? Suspira. Começará agora a pior parte de sua história.

Exclusiva para iniciados

Prática antiga, medieval, a alquimia sempre foi um mistério. A busca pela criação da “pedra filosofal” ou “a grande obra”, como os alquimistas a chamavam, tinha dois ilustres objetivos: a transmutação de metais em ouro e a obtenção do elixir da longa vida, que curaria todas as doenças e daria vida duradoura ou até imortal àqueles que o ingerissem.

Sabedoria misteriosa, prática oculta, a alquimia é classificada como uma arte hermética – de difícil acesso e compreensão –, exclusiva para seus iniciados. Muitos foram os relatos históricos ou literários de suas tentativas, fracassos e acertos. Porém, ter conhecimento do resultado não é o mesmo que conhecer o processo alquímico, este sim, o grande segredo de seus praticantes.

A diferença entre independentes e comprometidos

Partindo da adequação a linha editorial e do tamanho e tipo da editora (excetuando as universitárias), há perspectivas bem definidas para a avaliação de um original.

Não há segredo na maioria das editoras grandes e tradicionais. Se o original tiver apelo comercial, é aprovado e, se for mal escrito, copydesk nele até ficar bom. Caso não tenha apelo comercial, é negado. Mas, se for relevante culturalmente e/ou de um importante intelectual, é aprovado e segue pra fila de produção para ser publicado quando sobrar tempo e dinheiro. Enquanto isso, o marketing tenta inventar alguma forma de fazer com que um livro relevante culturalmente e/ou de um importante intelectual tenha apelo comercial.

Claro que essa é uma redução conceitual do processo – artifícios da ensaística. No entanto, esqueçamos a fantasia que a meta nunca é o sucesso comercial.

Uma grande editora é um negócio que tem seu maior compromisso no lucro. É importante também não justificarmos a qualidade editorial com a causa do dinheiro. Uma prática não esbarra na outra. Desconstrua, ainda, a ideia falsamente positiva de achar que um best seller possibilita a publicação de livros não comerciais. Um best seller minimiza o fracasso não esperado de outros livros. Ameniza os riscos do mercado.

Já a maioria das editoras pequenas e independentes é imersa em idiossincrasias misteriosas. Nestas, o suposto apelo comercial de um original não é fator determinante para sua publicação. Sim, o editor independente também quer ter lucro com seu negócio. A diferença é que o compromisso maior dele é com o leitor. Pode parecer discurso político, e é. Eles estão preocupados com a formação de um catálogo coerente para a construção de uma cultura que envolva cada vez mais o livro. E acreditam na bibliodiversidade como fator determinante desta realização. Além disso, não perseguem o crescimento em números, mas em leitores. É mais importante um livro ser trabalhado durante quatro meses do que quatro livros trabalhados por mês. Estes editores são necessários, também, para equilibrar o mercado e cobrar políticas públicas de fomento à leitura. Logo, a avaliação de um original, a partir destas condições, depende de fatores que fogem a qualquer análise. Inclusive a de um editor.

É bom ressalvar que isto pode parecer uma defesa de um ou outro modelo de negócio, mas é apenas uma breve análise do comportamento de cada um. Apesar das interpretações, a conclusão é óbvia: todos os tipos de editoras são essenciais para o leitor.

A riqueza, a vida e o mistério

O editor independente, no entanto – apesar destas idiossincrasias –, também é como os outros editores, um alquimista, um sonhador, que deseja sempre a “pedra filosofal”, a “grande obra”, que lhe dará poderes para tornar aquele original um livro de vida longa, eterno, para sempre vendido: ouro. Nesta busca, durante o processo alquímico, mistura metais, dissolve sais, armazena vapores, provoca reações químicas, altera o ambiente e descobre – e esta é sua peculiaridade – que a eternidade e o ouro não são o objetivo principal, o resultado esperado, que pode até não vir, mas sim o próprio processo, o fazer, a prática. Nisto está toda a riqueza, a vida e o mistério. Nisto está sua independência.

No mundo da lua

Ele descobre o prédio onde funciona a editora, espera o editor na saída do almoço e provoca um esbarrão. Desculpa-se, puxa assunto, explica que é escritor, vive no mundo da lua. Acabam almoçando. Feito. Agora é esperar. Não mais que seis meses. Afinal, o self publishing está aí, pra qualquer um brincar de ser editor.

Aquiles e a tartaruga ou o paradoxo dos preços de ebooks brasileiros
Postado por em 13 de julho de 2011

Zenão, filósofo pré-socrático, defendia a unidade e a indivisibilidade de tudo. Para argumentar contra os absurdos da multiplicidade, da divisibilidade e, consequentemente, do movimento – conceitos tratados como ilusões segundo a escola eleática, a qual frequentava – elaborou seus famosos paradoxos. Entre eles, estava a história da corrida entre Aquiles, ágil e veloz, e a tartaruga, lenta e pesada. Para diminuir o favoritismo de Aquiles, foi dada uma vantagem de tempo à tartaruga, que logo se colocou a correr, do seu jeito. Para Zenão, ao Aquiles atingir o ponto onde a tartaruga se encontrara, esta, durante este tempo, já avançara mais um pouco, ad infinitum. Este argumento, básico, leva a seguinte conclusão lógica: se a tartaruga iniciar a corrida primeiro, Aquiles nunca a encontrará e nem menos a ultrapassará. Porém, como todos sabemos, a realidade é bem diferente de certos raciocínios lógicos, e a intuição, por vezes, sobressai à racionalidade. O que nos surpreende, hoje, é perceber que um paradoxo de Zenão, refutado há séculos, pode ser base de uma lógica do mercado editorial brasileiro contemporâneo: a definição do preço do ebook.

A divisibilidade do destino

Em uma reunião recente entre dezenas de editores independentes e um empreendedor da área de ebooks, este defendia seu negócio com as seguintes palavras: “Corram! Disponibilizem seus livros em formato digital antes que os pirateiem. Não se preocupem com formato. Façam um pdf e entrem no futuro.” A maioria entrou e fez o certo. Hoje, são pouquíssimos os ebooks em epub, ou em outro formato, disponíveis. O que nos faz chegar a conclusão que o custo de produção de um livro digital é exatamente o mesmo do livro impresso. Por exemplo, para ficar no básico e generalizar, a produção envolve leitura do original, avaliação, preparação, copidesque, diagramação, revisão, capa… Com o arquivo do livro pronto, limpo, no final da produção, uma divisão ocorre. São dois destinos:

1. Livro impresso

a. Gráfica tradicional

b. Gráfica sob demanda

2. Livro digital

a. Pdf

b. Epub

i. Novo projeto

ii. Transmídia (opcional)

iii. Rediagramação

iv. Revisão

Vamos tomar como referência o fato: simplesmente, o pdf – ebook – é o mesmo arquivo que a editora envia para ser impresso em gráfica. A única diferença no ebook é não ter as linhas de corte.

A multiplicidade do ebook

No mercado digital, dois novos conceitos surgem: estoque infinito e distribuição ilimitada. Um ebook não esgota e muito menos ocupa espaço de estoque e, o que parece contraditório, no meio digital é perfeitamente viável. A distribuição que, no impresso, sofria inúmeras restrições, não possui mais limites. Qualquer leitor com uma simples conexão a internet (celular, tablet, PC, notebook, netbook etc.) tem acesso ao ebook. O sonho está realizado. Mas quanto custa este sonho?

Ao calcular o custo final de um livro impresso um dos fatores preponderantes é o custo da tiragem impressa pela gráfica. A partir disso, soma-se o custo de produção (entram aí também divulgação e lançamento), divide-se pela tiragem vendável (retira-se 10% dela para cotas de autor, imprensa e perdas) e define-se o multiplicador para determinar o preço de capa. Este multiplicador é que determinará seu fôlego comercial e seu retorno financeiro, podendo até em muitos casos começar com défice. Para se chegar ao custo do livro, portanto, é necessário definir uma tiragem inicial impressa. E isso, no ebook, não existe.

O movimento do editor

Este impasse pode ser resolvido. Mas para isso, o editor precisa confirmar sua vocação. Responsável, entre outras coisas, pelo conteúdo que chegará ao leitor, o editor – necessariamente – precisa ser um profissional à frente de seu tempo. Aquele que, mais que atualizado culturalmente, é um dos que atualizam a própria cultura. E, esta atividade, por mais que seja consciente, vive de apostas e riscos. Óbvio que vai além da racionalidade lógica, não é uma ciência exata e requer intuição. Acerta mais quem se movimenta.

E o movimento do editor no mercado editorial digital, que enfrenta um período de testes, deve ser em prol da conquista de mais leitores, sempre. A formação do leitor na era digital está vinculada a criação do hábito da leitura de ebooks. O leitor mantém, por outro lado, em média, um senso comum que caracteriza depreciativamente o ebook comparando-o ao livro impresso. Por fatores completamente subjetivos: apego, glamour, cheiro etc. O que é compreensível, já que se trata de uma cultura e um hábito enraizados em nossa vida. No entanto, o ebook pode ser lido em múltiplas plataformas, carregado em leves leitores digitais aos milhares, trocado facilmente, possibilitar transmídia… O leitor que não vivencia diariamente essa experiência não quer pagar nem a metade do valor de um livro impresso em um ebook. Ele quer pagar barato e precisamos entender isso como um apelo do leitor. E está pedindo ao mercado para viver esta experiência e para deixá-lo mudar de hábito. Afinal, o leitor brasileiro não está familiarizado com o ebook, mas, como tudo que é novo, quer experimentá-lo.

O resultado da corrida

O ebook pode realmente ser mais barato? Pode. Tanto o best seller quanto o long seller em ebook, em maioria, salvo alguns casos muito particulares, podem custar ao leitor menos que dez reais e se tornarem projetos viáveis e rentáveis. O editor brasileiro tem que começar a entender, de uma vez por todas, que é lucrativo, em várias frentes, vender mais ebooks mais baratos do que vender menos ebooks mais caros. Enganam-se os que acham que o editor quer lucrar mais. Por outro lado, é incoerente, falta de inteligência e visão, o editor aceitar para os ebooks as mesmas condições dadas pelas livrarias às consignações do livro impresso – e repassar a diferença ao leitor.

O livro impresso chegou antes e toda uma estrutura comercial existe há tempos para manter esse negócio e, ainda que tenha como base o mesmo conteúdo/arquivo, o ebook, que corre por fora, é um produto completamente novo e suas condições mercadológicas devem ser diferentes.

Não é tão fácil que isso aconteça. Somente se a lógica do mercado editorial e livreiro for renovada. É uma briga que deve ser comprada pelos editores e também por associações, sindicatos e ligas, com o objetivo de transformar o adversário em parceiro, fazê-lo jogar no mesmo time. É claro que aí está uma decisão: vamos, editores, deixar Aquiles/ebook, ultrapassar a tartaruga/livro impresso?

Aceitar o mercado como está é pensar que o paradoxo de Zenão pode se tornar uma verdade, é acreditar que a tartaruga nunca será ultrapassada por Aquiles. É desconhecer o poder do leitor. A diferença é que sabemos, há séculos, o resultado desta corrida.

Primeiro post
Postado por em 15 de junho de 2011

Queridos leitores do Subtítulo, entrei no mercado editorial com um site assim, quase como esse. O projeto, chamado Bagatelas, reuniu novos escritores de língua lusófona de vários pontos do Brasil, além de Portugal, Angola e Moçambique, no início dos anos 2000. Lá compartilhavam a literatura contemporânea que produziam e dialogavam com seus pares.

Com o tempo, o projeto tomou boas proporções e chegamos a publicar três números de uma revista impressa, além de publicar alguns livros. Eu era ao mesmo tempo escritor e editor. Essa repercussão me levou a ser convidado a gerenciar uma livraria no Centro do Rio Antigo.

Foi uma boa aventura formar-me livreiro, conhecer o mundo dos livros usados e ajudar a movimentar o circuito literário com eventos, bate-papos e encontros. Ao mesmo tempo, terminava a faculdade de Filosofia e refletia sobre todas as mudanças do mercado editorial e que eu, como escritor, editor e livreiro, enfrentava também.

Hoje, após uma década, sou editor de uma editora pequena e independente, no Rio, onde aprendo muito, diariamente. As mudanças no mercado editorial não param de acontecer e continuo refletindo sobre elas. Reflexões que a partir de agora compartilharei aqui.

Esta apresentação, querido leitor, foi só para vocês me conhecerem um pouco, já que em breve nos tornaremos íntimos! Boa leitura!

O mercado de Heráclito ou o dilema das pequenas editoras
Postado por em 17 de maio de 2011


Ele, editor, 46 anos, atravessa o Aterro do Flamengo dirigindo seu automóvel popular, escutando Buena Vista Social Club, imaginando o quanto seria diferente se não tivesse seguido sua paixão: abrir uma editora. Teria sido melhor ter continuado como funcionário, alto executivo? Aproveitado o FGTS para comprar um apartamento? Ter investido para ter sua aposentadoria sem riscos?

O risco está na profissão do editor como a palavra está na do escritor

A editora, aberta há seis anos, pequena, independente, nunca atrasou nenhuma conta, imposto, salário. Sempre em dia com tudo, terceirizou serviços, como logística de estoque, entregas, e-commerce, produção editorial, comprou sistema de gestão e sempre prezou em agir como grande. Emprega cinco funcionários e, mesmo assim, o editor, dono, bate ponto por quase doze horas diárias trabalhando para ver o negócio ir adiante.

Entre seus títulos, há grandes sucessos de mercado, alguns infantojuvenis adotados pelo FNDE/MEC, secretarias de educação e grandes escolas pelo país. O catálogo é em maioria de long sellers, aqueles títulos de vida longa, que vendem pouco, mas vendem sempre. A tiragem é em média de mil e quinhentos exemplares e a distribuição envolve cerca de duzentos pontos pelo país.

Um quadro normal se não fosse o faturamento e as despesas. As contas não batem. Sim, claro que não batiam quase nunca desde sua abertura — como toda pequena editora —, mas empréstimos, capital de giro, cheque especial, cartão do BNDES e vendas governamentais servem para deixar o último suspiro sempre para mais tarde. E o risco está na profissão do editor como a palavra está na do escritor. O caso é que em quase dois anos tudo começou a mudar bastante. Mudar na editora e no mercado editorial.

A diferença entre o que publicar e como publicar

Alguns novos conceitos surgiram na vida do editor em pouquíssimo tempo: ebook, print on demand, crossmedia, transmídia, booktrailler, vook, tablets… Somando a isso, a correria — iniciada pelas ebookstores — pelos ebooks. Afinal, o pulo do gato era não deixar que a pirataria chegasse primeiro. E quem não chegasse antes estava fadado a morte no século XX, já tão ultrapassado. Esse terror começou a dividir a cabeça do editor, preocupado, até agora, mais em saber o que publicar do que em como publicar.

O fato é que o mercado varejista estava diminuindo cada vez mais, pelo menos para os pequenos e independentes. Por um lado, livrarias de bairro fechando, perdendo espaço para as megastores, leitores comprando pelos sites, buscando o melhor preço. Por outro, o acesso fácil a softwares de edição, os freelancers entrando de sola no mercado — como consequência a diminuição dos preços para o design editorial de uma obra —, o surgimento em massa de “escritores” com a popularização da internet, a facilidade de financiamento de impressão em gráficas e o big bang: a modernização dos meios de impressão, com a qualidade do print on demand equiparada ao antigo offset. Juntando tudo, o que vemos é a enorme quantidade de lançamentos disputando cada milímetro de cada estante de cada livraria, por onde ficarão, em maioria, até que o editor reclame seu livro de volta. A conclusão é catastrófica: não são os leitores que estão morrendo, os livros é que não param de nascer.

A opção, para os pequenos editores, foi passar a encarar o livro como conteúdo. Se aquele conteúdo será lançado em ebook, app, livro impresso, e se, impresso, em qual tiragem, é o que parece importar agora.

O mercado de Heráclito

Quando Heráclito de Éfeso conclamou o panta rei, ou, tudo flui, muito antes da invenção da imprensa de Gutemberg, não iria imaginar que a metáfora do rio sempre em movimento iria caber tão bem ao mercado editorial em pleno século XXI. O editor imagina, mas não tem certeza do que virá pela frente, e as possibilidades são infinitas. O importante para ele, hoje, é passar pela mudança, nadando na direção do rio, tentando chegar em algum lugar, mesmo sabendo que não há ponto de chegada, somente o movimento, e que este, o movimento, é que precisa ser feito.

O dilema das editoras contemporâneas está em quebrar seus paradigmas, mudar seus conceitos e se transformar com esse movimento, mas, ao mesmo tempo, preservar o trabalho do editor. Enquanto muitos proclamam o fim do livro, o mercado, se continuar assim, esquecerá de preparar o funeral do editor. O livro continuará existindo, sem dúvidas, mas já existem muitas editoras que nem sabem o papel de um editor. Não podemos esquecer que o conteúdo vale ouro e o editor continua sendo sua pedra-de-toque.

O caminho a seguir

Uma reunião curta. Tabelas, gráficos, valores, contas. Muitas contas. E a conclusão, óbvia: não há como pagar o salário dos funcionários no final do mês. Dos somente cinco funcionários.

A solução é reinventar-se. Trabalhar com impressão sob demanda, repensar o papel da distribuição, pensar nos ebooks, usar a tecnologia a seu favor, vender o excesso do estoque como saldo, ir atrás do leitor de cada livro e convencer seus autores que as mudanças são efeitos do devir do próprio mercado. Seus funcionários devem também repensar o que fazem ali. Encarar o trabalho em uma pequena editora é quase que se tornar sócio do negócio. Se não for assim, procure sair o quanto antes. Este é o caminho do rio.

E para continuar nadando nele, ele, editor, 46 anos, precisa fechar os olhos e vender aquele anel há anos na família, única herança de sua avó, vitima de Auschwitz. Esse é o risco de todo editor. O mesmo que reflete toda a mudança que o mercado editorial está passando, exatamente agora. Preocupante? Sim, mas vão-se os anéis, ficam-se os dedos.

Entrevista Roberto Laaf – Ponto do Autor / Prêmio Codex 2011
Postado por em 9 de maio de 2011

Roberto Laaf é romancista, autor de Virgo – A Era dos Homens (2003) e da saga Horizontes (2010-11). É fundador do Ponto do Autor, grupo responsável pela organização e divulgação do super-comentado Prêmio Codex de Ouro.

Roberto Laaf: Antes de passar às perguntas, quero agradecer a oportunidade de estar aqui no Subtítulo para falar a respeito do prêmio literário Codex de Ouro e de sua primeira edição.

1) Explique como a ideia de criar o Prêmio Codex de Ouro surgiu.

Bem, a ideia do prêmio literário surgiu durante o processo de definição do Ponto do Autor, quando o grupo ainda estruturava os primeiros recursos que colocaremos na internet à disposição dos autores. Nossa ideia sempre foi divulgar o projeto Ponto do Autor com algo que pudesse valorizar a literatura e ao mesmo tempo atrair pessoas à nossa proposta, e foi então que eu afirmei ao grupo que a melhor opção seria promover um grande prêmio literário com o diferencial de dar forma ao retorno proporcionado pelo público leitor.

Uma vez decidida a questão de promovermos um prêmio literário desta natureza, com foco no retorno popular identificado na internet, começamos a definir nossa base de conhecimento, o formato do prêmio e sua estratégia de divulgação.

2) Você também é escritor. Você acredita que premiações como esta ajudam a alavancar a carreira de um escritor?

Olha, Janda, particularmente acredito que um prêmio literário possa trazer fôlego à carreira do escritor, sim, e mais ainda, agregar valor comercial ao seu trabalho e incentivá-lo a dar continuidade à criação de novas obras.

Mas para que um prêmio possa realmente conceder aos seus premiados todos esses benefícios é preciso que ele tenha força, que seja aceito pela opinião pública e ao longo do tempo mostre que os seus resultados condizem com a realidade de tudo aquilo que se propõe a premiar.

Existem milhares de prêmios literários espalhados pelo Brasil, a maioria, no entanto, não passa de caça-níqueis por meio de inscrições baratas, e, que, no final das contas, não possui a força necessária para agregar valor aos seus premiados, sejam autores, títulos ou outros envolvidos.

O Codex de Ouro é um prêmio promovido essencialmente por um grupo de autores e seus associados (empresários, editores, artistas e investidores); em primeira instância, um prêmio popular, porque no que diz respeito à avaliação e seleção de seus indicados, necessita garimpar a web em busca dos comentários e opiniões relevantes que destaquem o encantamento dos leitores. Depois, escolhidos os indicados em cada categoria, o grupo faz uma análise mais restrita para a escolha dos vencedores.

Estamos trabalhando para que o Codex adquira essa força que citei, e que ele esteja à altura de todos aqueles que o grupo Ponto do Autor pretende premiar. Agora, com certeza, ele já mostrou que tem potencial, basta dar uma pesquisada no Google e ver o tanto que já estão falado sobre o prêmio. Além disso, sem dúvida alguma ele desperta a curiosidade das pessoas. Eu mesmo, por exemplo, fiquei com vontade de ler todos os títulos indicados nesta primeira edição do prêmio.

3) Depois de toda a confusão com o prêmio Jabuti no ano passado, você acha que a tendência agora é surgir novas premiações, que descentralize os prêmios dos autores já consagrados e apresente os novos autores ao público geral?

O prêmio Jabuti, embora tenha o seu glamour, é muito burocrático e possui uma excessiva quantidade de regulamentos que, difícil não pensar assim, favorece a escolhas políticas como a ocorrida na edição passada. Pelo tanto que li, pareceu-me, sim, uma escolha política; sem desmerecer a qualidade da obra do vencedor que, inclusive, é um dos autores indicados para autor destaque no Codex 2011.

Mas a tendência de escolhas políticas, ou de escolhas que tenham por trás algum motivador político, não é exclusiva do prêmio Jabuti, até mesmo o prêmio Nobel de literatura tem selecionado suas obras com algum apelo político em suas últimas edições.

Não acredito que a confusão ocorrida no Jabuti 2010 possa incentivar a criação de outros prêmios de igual valor ou de mesma “aparente” proposta, porque, como eu disse antes, já existem milhares de prêmios que não conseguem apoio massivo para lhes conceder a devida credibilidade em âmbito nacional. O próprio Paulo Coelho, outro indicado para a categoria autor destaque no Codex 2011, afirmou em seu twitter que o Jabuti é um prêmio irrelevante, entre outras afirmações que desmerecem o prêmio.

Enfim, o Codex de Ouro está aí como um prêmio diferente, livre dos grilhões técnicos e dos julgamentos de intelectualóides que, em geral, agarram-se à mesmice de escolhas; o Codex, ao contrário, busca sua força no próprio público leitor, com o apoio dos resenhistas, blogueiros, autores e de todos os que colaboram para a produção literária (que proporcione a boa leitura) neste país.

Mais uma vez agradeço a oportunidade de estar aqui e espero que as respostas tenham sido favoráveis para satisfazer a curiosidade dos leitores do Subtítulo. Quem desejar mais informações pode entrar em contato com o pessoal do Codex 2011 pelo e-mail codex@pontodoautor.com.br

Autoras X Autores
Postado por em 18 de abril de 2011

Não, isso não é um post sobre a presidentA. Também não é um post sexista.

É sobre uma pergunta: onde estão as autoras contemporâneas?

Claro que essa pergunta é baseada numa observação minha e apenas minha. Não tenho embasamento científico, nem dados estatísticos nem provas contundentes que não seja minha própria experiência.

Para quem não sabe, eu tenho um espaço em parceria com a Saraiva do Rio chamado Nós, Autores, onde todos os meses eu recebo um autor convidado para um bate-papo com os leitores. Com seis meses de vida, recebi muitos livros de autores interessados em participar, dos quais 90% eram do sexo masculino.

Por que?

Considerando as autoras novas que publicaram na última década aqui no Brasil (ou seja, do ano 2000 pra cá), quantas vocês conseguem lembrar o nome? Quero dizer, não aquelas que já publicavam, mas sim as que surgiram do nada e lançaram seus livros nos últimos tempos. Reduza essa lista, agora, com aquelas que lançaram por editoras, mesmo que de médio ou pequeno porte.

Resultado: poucas.

Poucas, se considerarmos, nesses mesmos quesitos, o número de homens publicados.

Pense consigo mesmo: diga o nome de dez autoras publicadas e surgidas do nada desde 2000 até hoje. Bom, você leva alguns minutos. Agora pense no nome de dez autores. Você termina sua lista muito mais rápido. Simples assim.

Apontar quais são os fenômenos que contribuem para que esse quadro permaneça pouco mutável levaria algum tempo, posto que eu teria que fazer um estudo aprofundado sobre o assunto. Mas não deixo de me perguntar se isso seria, de repente, falta de confiança das nossas meninas em publicar por editoras, de modo a decidirem fazer uma edição por conta própria. Ou será que esse quadro ainda seria resquício da revolução feminista dos anos 70, de modo que aos poucos, bem aos poucos, as autoras começam a surgir quarenta anos depois, porque muitas ainda têm que cuidar da casa, da família, etc. Ou será que as editoras é que não gostam muito de publicar as autoras brasileiras?

De verdade, não tenho como apontar uma resposta. Mas intriga-me pensar que, no geral, as mulheres leem mais, e, no entanto, os homens escrevem e publicam mais.

A Questão do título
Postado por em 11 de abril de 2011

Vocês sabiam que título não tem dono? É que nem aquele ditado que vocês conhecem…

Na verdade o título tem e não tem dono. Explico: toda vez que um autor escreve alguma coisa, coloca-se um título, seja conto, poesia, romance, enfim, tudo. O título deve a princípio ser auto-suficiente, ou seja, conter em si mesmo todas as informações necessárias para que o futuro leitor consiga saber logo de cara do que se trata a história. A tarefa é mais complicada do que parece, pois, acreditem, uma das maiores dificuldades dos originais que tenho lido é arranjar um bom nome.

Ok, mas com milhares de publicações anualmente no mundo todo, fica difícil conseguir um título completamente original, certo? Ainda mais se compararmos aqueles romances de banca de jornal que em geral têm o mesmo enredo… Como ser original?

O que acontece na prática é que um título não tem dono, por isso podemos pesquisar e encontrar centenas de livros com o mesmo título ou parecido. Não há plágio nesse quesito, mas é necessário tem bom senso. Uma coisa seria escrever uma história sobre um menino-bruxo com cicatriz na testa e que é convidado para ir para uma escola de magia – aqui o plágio não seria no título, mas sim no enredo, mas isso é assunto para outro post. Posso escrever toda essa história e chamá-la “ As aventuras do menino-bruxo”, se eu quiser, mas dificilmente eu conseguiria uma editora que apostasse num projeto de plágio tão descarado.

Outro exemplo seria eu contar a história de um carpinteiro no interior da Austrália chamado Harry Potter. Neste caso, embora a história seja completamente diferente, Harry Potter é uma marca registrada já e não apenas um título. Meu carpinteiro poderia se chamar Harry Potter, mas não meu título – até porque, convenhamos, isso seria comprar uma briga desnecessária e que só tende a prejudicar o autor.

Também posso escrever um livro chamado Diários de uma Paixão, mas se eu contar uma história de um casal que se conhece da década de 30 e não sabe se vai ficar junto no futuro e etc, posso ser processada por plágio pelo Nicholas Sparks, pela semelhança. Mas posso escrever um Diários de uma Paixão que conta as aventuras de um serviçal que tinha um amor platônico pela filha do dono da fazenda durante a escravidão no Brasil.

São coisas diferentes.

Então se você que me lê está se aventurando a escrever alguma coisa, reveja se seu título não poderá lhe trazer algum problema por causa da semelhança com alguma outra publicação. A não ser que as histórias sejam completamente diferentes, acredite: você não vai querer ter uma dor de cabeça desnecessária só para manter seu título.

O Lançamento – parte 2
Postado por em 4 de abril de 2011
Antes que os anônimos reclamem que “isso não tem a ver com mercado editorial”, explico que tem sim, afinal, o lançamento é a etapa final da parte inicial de todo o processo da confecção do livro. Deu pra entender? 

Quando um livro é escrito, apenas a primeira parte do processo é concluída. Depois disso, segue-se uma série de etapas de produção, que inclui a leitura do original, revisão, copidesque, preparação, capa, ajustes, adaptação, ilustração, tradução, enfim, há um mundo de possibilidades no qual o livro poderá se encaixar, dependendo das intenções do mesmo no mercado editorial.

Tendo tudo isso em mente, o lançamento passa a ser, então, a etapa final de todo esse processo e, ao mesmo tempo, a etapa inicial da nova fase na qual o livro passa a figurar: uma fase de divulgação e marketing, na qual o livro já é um objeto real e passa a figurar em todos os lugares ao mesmo tempo, prenunciando a vinda do autor e/ou dos envolvidos em sua feitura. 

Eu já estive em alguns muitos lançamentos, mas somente tive dois lançamentos oficiais de livros meus – e aqui quando digo oficial, considero apenas o primeiro lançamento, que é sempre o mais difícil e o mais aguardado. Comparando um com o outro, num intervalo de menos de um ano, aprendi que mais do que importante, é essencial ter uma equipe (ou uma pessoa) que cuide de todos os estresses da produção do evento para você. Uma vez mais faço a comparação com um casamento: tal como nesses eventos, a noiva contrata alguém (bom, às vezes né, quando o orçamento permite) para cuidar da produção do casório, justamente para que ela possa entrar na igreja linda, leve e fresca, enquanto o produtor está de tênis e todo estressado porque ainda não entregaram as flores.

Essa é uma dica fundamental para quem está pensando em lançar livro. É claro que nem sempre podemos contar com um verdadeiro profissional, mas todos nós temos aquele amigo que é metido em organização de evento; ofereça uma quantia a ele para lhe ajudar no dia, assim, enquanto você se preocupa apenas em assinar livros e sorrir para fotos, o seu amigo fica cuidando para que não falte produto no estoque da livraria, que todos os livros comprados venham com o nome da dedicatória escrita para facilitar sua vida (e não te fazer ficar com cara de tacho quando aparece aquele sujeito que te conhece há tempos, mas você nem lembra o nome), assegurando que a bebida chegue a todos os convidados e que os penetras não se dêem tão bem assim.
Vai por mim: é muito melhor desembolsar uma graninha e pagar alguém para ter esse estresse por você do que chegar o bendito dia do seu lançamento e você ter que cancelar sua sessão de manicure para cuidar da coxinha que não vai chegar a tempo.
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