Literatura de Email
Viva a classe média
Postado por em 15 de fevereiro de 2012

Risos. Muitos risos. Cof, cof, cof. Alguns segundos para me recompor. Vamos lá. Durante as minhas férias decidi ficar off-line, desconectar dos viciantes gadgets. O melhor da experiência foi a sensação de descobrimento quando acendi meu computador e chequei os meus e-mails e minhas mensagens no Facebook. Olha só que curioso: o assunto na tevê, no começo desse ano, foi o reality “Mulheres ricas”, uma clara inspiração no “The real housewives”.

Recebi dos meus leitores amigos, sem hipérbole, uma dúzia de links no Youtube. Antes de assistir, fui pesquisar quem eram as protagonistas. Uma vergonha eu não saber absolutamente nada de nenhuma delas, com exceção, óbvio, da Narcisa. E o Google e o Wikipedia não me deixam mentir: a biografia de duas delas é do mesmo tamanho que o do Mussumzinho. Papo de cinco ou seis frases, e olhe lá.

Enquanto me divertia com os vídeos, me perguntava: será que elas não conhecem alguém que avise da pagação de mico? Sei lá, um puxa saco mais atrevido que dê um toque ou uma lúcida amiga das antigas que deixe escapar a verdadeira opinião. Mas olhando bem, érrr, acho que as rêmoras já foram melhores. Um lado positivo pro estudo antropológico: enxergar e analisar aqueles que cercam as protagonistas.

E nesse quesito, um me chamou bastante atenção. O nome dele é Duda Martins, mas poderia facilmente ser chamado de Crô, o personagem do Marcelo Serrado em Fina Estampa. O Duda, que é empregado da Val Marchiori, sabe-se lá fazendo o quê, desempenha como poucos o papel de puxa-saco: elogia de forma exacerbada, solta as frangas nos comentários sobre a chefe, chega a chorar de emoção por dividir o mesmo espaço da poderosa loura. “Você está divina”, “Ser Val Marchiori é ser Val Marchiori” e “Rainha do Nilo, Nerfetiti da Chanel” (ok, essa ainda não rolou, mas tá no processo).

Por falar na Val, será que ela aprendeu inglês com o Joel Santana? Rélou, pipóu, gud dei, pode to be. E português, com quem foi? Tiririca? Nos filmes do Mazzaropi? Depois de assistir alguns episódios, agradeci aos céus por ela beber champanhe todo dia. Se a socialite já não tem muitos neurônios bebendo, imagina se ela preferisse maconha.

 Outra que andei incluindo em minhas preces foi a Brunete Fracarolli. Rezei pra que caminhe longe dela dores de barriga, caganeiras e derivados. Ela já passou, com folga, dos sessenta anos, mas acredita, e ai de quem discorde, que semana que vem é a festa do aniversário de 15. É capaz até de querer fazer mais uma plástica. E aí, meus queridos, que está o problema. A senhorita tem tanta plástica, mas tanta plástica, que desconfio seriamente que num peido de altos decibéis uma das bochechas voa longe. Ou as sobrancelhas. Ou tudo junto e misturado.

Se até em faculdades e empresas públicas há vagas para cotistas, por que seria diferente no reality? Palmas pra a inclusão. Débora Rodrigues, ex-militante do MST, tá mostrando que aprendeu bem com alguns líderes do movimento. Tá só no bem bom. Pra quem não conhece, Débora é a Sula Miranda dos abonados: ama caminhões e corre na Truck. Poxa, um alívio que não desandou a cantar.  De qualquer fome, irei rezar pra isso também.

Eu não sabia que a Narcisa é advogada. Não é à toa que muitas faculdades de direito estão sendo fechadas. Agora um exercício de imaginação: visualize a Narcisa defendendo uma causa sua. Você entra com chances mínimas, é o mesmo que concorrer à presidência da república pelo PSOL.  Caso você tenha conseguido sem problemas, vamos pro próximo estágio. Tente conceber a Narcisa ensinado revolução francesa pros filhos.

- Ai, que loucura, a guilhotina estava solta. Era cabeça pra tudo que é lado. Uh, Robespierre. Ai, que absurdo.

Por fim, vale dar nota 10 pra Band. Conseguiu o que queria: provocar e alavancar a audiência. E, sem querer, conseguiu também que valorizássemos ainda mais o crescimento da classe C. Vivam os conflitos da classe média.

Novos ídolos
Postado por em 3 de janeiro de 2012

Olha, eu preciso me confessar: desde moleque adoro um programa trash. Só pra dar um exemplo. Enquanto meus amiguinhos assistiam a Xuxa, eu perdia horas e horas tentando decorar “tuiuiu iu iu, sou curumim iê iê, tuiuiu iu iu, sou curumã arauê”. Acho que sou uma das poucas pessoas que sofreram bullying por gostar da Mara Maravilha. Até hoje, meus amigos, alguns pais de família e tudo, me chamam de curumim iê iê.

Bem mais tarde, ainda seguindo esse maldito gosto pelo estranho, pelo bizarro, por ver até onde o ser humano vai para alcançar alguns minutos de fama, conheci o Jonas Santana. Lembro bem da situação, sente só a barra: domingo, madrugada pesada, tipo umas 2 da manhã, eu terminando um trabalho sobre a importância do Deleuze pra comunicação e precisando acordar cedo pra tentar conciliar fim de faculdade e estágio-com-toda-pinta-de-trabalho-mas-com-salário-de-estágio. Pois bem, acendo a tevê na Band e lá estava ele, Jonas Santana, com um molejo corporal que proporcionava inveja numa lombriga, não falando lé com cré e pedindo close nas dançarinas semivestidas. Tudo isso em um estúdio improvisado numa quadra de esporte de um clube no subúrbio do Rio de Janeiro. Pronto, mais um trash me conquistava.

Infelizmente essa preciosidade acabou. Depois disso, Jonas tentou ser vereador, tomou uma lavada, nem as dançarinas votaram nele, não entrou nem pra suplente e sei lá onde foi parar.

Nesse mês recebi uma indicação de programa da leitora Mariana Lopes. Antes de qualquer comentário, veja. Mas veja com atenção.

Eu desconfio seriamente que o terceiro segredo de Fátima passa por esse programa.

Meu amigo Saulo Machado, outro amante do trash, me disse que a repórter, Cida Moraes, é uma ex-BBB. O Wikipedia me disse que o apresentador, Fernando Reski, é ator. E a Rogéria é a Rogéria, ninguém precisou me dizer.

Pois bem, quem será que escreveu o roteiro? Será que alguém escreveu o roteiro? Não, lógico que não tem roteiro. Nem editor. Nem diretor. Arrisco a dizer que nem câmera.

O Reski, em um improviso genial, começa a fala contido, e aí parece que recebe uma pomba gira e vai se soltando, se soltando, se soltando, a ponto de anunciar a entrevista (com a Rogéria) com essa pérola: é humana, é companheira, é colega. Sabe até de futebol, coisa que eu não sei. Parabéns (não aguento de rir quando ele levanta a mão como se estivesse brindando uma divindade grega). Parabéns? Oi? Parabéns por saber de futebol?

É uma escala de valores, no mínimo, curiosa. Imagina se ele fosse chamar uma entrevista com o Pelé. Ou com o Casagrande. Pensando melhor, a Rogéria deve saber mais de futebol que o Casagrande. Vamos tocar o barco.

Antes da patética entrevista aparece um take da Rogéria cantando. Dia desses li que a Vanusa está muito triste por esquecer as letras e ser zoada na internet. Ô, Vanusa, quando tiver na merda, depressiva, olha a Rogéria. Vai te dar um ânimo danado, é capaz até de querer correr no parque, na praia, gravar um cd só de hinos e tomar quinze activias em homenagem ao mundo. Será que esse take era o melhor momento do show? Não é possível.

Alguém fez de propósito. Só pode. Isso é papel de espírito de porco.

Convenhamos: o trabalho do editor não deve ser fácil. Esse coitado deve pensar em se demitir todo dia. Se ele recortar só o que a repórter fala de interessante, tcharam, só vai sobrar o Gente Carioca do início. Convenhamos, parte dois: o que significa “segura essa manga e chupa esse quadrado”? Convenhamos, parte três: quando a entrevistada erra o nome do programa é indicado que se edite. Convenhamos, parte quatro: a Rogéria devia olhar o microfone antes de falar qualquer merda. Convenhamos, parte final: se existe editor nessa bagaça, e se ele se demitir, é capaz de não conseguir trabalho nem como vendedor de curió.

A partir de hoje, esse programa será meu xodó, meu tarja preta contra o mau humor universal. E prometo, aproveitando o momento de confissão, que estou torcendo que a Cida entreviste o Sabbá (não conhece? Youtube já!) e o Toninho do Diabo. E fico até imaginando o diálogo entre ela e o autointitulado filho do Satanás.

- Ai, meu Deus, estamos aqui no camarim do Toninho do Diabo, um inferno, ui, tá pegando fogo.

- É pegadinha do Malandro?

- É… não… é do Gente Carioca.

- Do Silvio Santos, né? Eu sei que é você, Ivo Holanda.

Chega de bobagem. Mês que vem tem mais crônica em cima daquilo que vocês enviam. Não sabe o e-mail? Anote: gomide@embranco.com.br.

Notas pós-texto: vale pular a entrevista da Rogéria e ir logo para 9:51, que você verá o bate-papo entre nossa heroína e a Fujica de Haliday(?).

Faz barulho aê!
Postado por em 27 de outubro de 2011

Quem mora em uma grande cidade está mais do que acostumado com barulhos. E, na maioria das vezes, não tem como fugir. Vai trabalhar e é o som de operários com marretas, furadeiras e associados, gente no metrô conversando amenidades pelo Nextel, os toques altos e escrotos de celulares alheios – ou do seu celular –, o gordinho do almoxarifado que é campeão em gritos à distância, o berro dos camelôs, as músicas ambiente das lojas de varejo popular, ufa!, e até, olha só, as buzinas dos carros. Depois de enfrentar tudo isso, chegar esgotada, guardar os pingos finais de energia para a combinação jantinha requentada-televisão a cabo-beijos na nunca, a última coisa que você quer é ouvir ronco a noite toda. Eu tenho uma teoria: quem inventou o ronco foi um eunuco garanhão. Não como, mas não dorme.

Resolvi escrever sobre esse tema depois de receber o vídeo abaixo do Leonardo Gomes.

Dúvidas cruéis: é possível ser casada com um camarada desses? Sério? Sério mesmo? A pessoa é feliz, daquelas que acordam brindando com os passarinhos e querendo um chamego mais danado pra começar bem o dia? Só me resta imaginar que ele deve ser demais, quase um Shakar, um mundo de energia e satisfação. Bem, depois de um minuto aparece a mulher dele, pifada, igual uma pedra. Está explicado. Ela não conhece o marido dormindo. Imaginação cruel: o ronco poderia ter hora estipulada, ser uma alternativa estranha ao despertador.

Por falar nele, não conheço ninguém que acorde regularmente sem despertador. Você está sonhando, deitado em berços esplendidos, curtindo, sei lá, os seus trinta e cinco milhões ganhos na mega-sena, quando de-repente um barulho te traz para a dura realidade. Pesquisando, eu descobri que os espíritas defendem que, ao dormirmos, nosso corpo fica na terra e nosso espírito vai se relacionar com o mundo espiritual. Fiquei seriamente preocupado: acordo com qualquer barulhinho, tenho o sono mais leve do universo, ou seja, estou me relacionando mal pra caramba com os que já foram, até imagino que devem estar me chamando de Rafinhas Bastos.

Por tudo isso e mais um pouco que estranho quando o Marcelo D2 pede pro pessoal fazer barulho. Queridão, a gente faz barulho pra cacete. Ok, vão me dizer os chatos: é no sen-ti-do fi-gu-ra-do, é uma for-ma de ex-pres-são. Ok, prometo não explicar piadas. Como prometi não contar com nomes e sobrenomes, e detalhes sórdidos, o relacionamento de um grande amigo que deu um cachorro de presente para a namorada. Até aí tudo lindo, romântico, cena de Woody Allen. Problema: o cão é quem ronca como poucos. Ela não dorme mais, está sofrendo com enxaqueca, tá bebendo pra dormir, entrou em greve de sexo e até começou um tratamento de florais. No cachorro.

Outro amigo – sequelado até a curva mais acentuada do cerebelo – ensinou o papagaio dos pais, o famoso Raimundo, registrado no Ibama, cheio de frescuras, a cantar “quero cagar, não posso, toma limonada…” O papagaio canta o dia inteiro isso. Inclusive de noite. A mãe quer devolver pra natureza. O pai está tentando ensinar clássicos do Cartola. Meu amigo nem ousa aparecer com medo dos pais darem para ele. Todo mundo sonha com uma noite tranquila de sono, afinal sabemos que o despertador e o dia-dia nos esperam de braços abertos.

Sim, prometi na última crônica que falaria sobre os livros e contos eróticos. Mas não pude deixar passar esse vídeo. Como diria Caetano: foi demais pra eu não me abalar. Continuem mandando sugestões pelo gomide@embranco.com.br. Obrigado pelas colaborações. Até a próxima.

E como diria Vinícius…
Postado por em 19 de setembro de 2011

Olha, vou logo avisando: esse texto é totalmente aconselhável para quem está com a vida sexual that´s all right, também pros rapazes – e moças – que estão só espinha e osso, pra aqueles que treinam frases sexuais de efeito em frente ao espelho, pra quem anda sonhando um ménage com a Joelma ou com o Chimbinha – ou com os dois, sabe-se lá, tem gosto pra tudo –, e pros inveterados em xvideos, queridachupeta.com, rampeiras.ws e companhia.

Escrevo essa coluna depois de receber e-mails e mais e-mails dos meus leitores. Devo confessar: cada mês que passa, acredito que eles querem me sacanear sem piedade. Parece ação orquestrada. Entre e-mails religiosos, românticos e até terapêuticos, uma enxurrada de dicas para aumento peniano, retardamento da ejaculação, contos pornográficos com detalhes sórdidos, vídeos caseiros, e os livros da Melissa Panarello (Cem escovadas antes de ir pra cama) e da Raquel Pacheco (O Veneno do Escorpião e O que aprendi com a Bruna Surfistinha).

Resolvi tirar um domingo pra assistir e ler tudinho. Pensei: vou começar pelos mais leves, os filmes, que, em sua grande maioria, não prezam – e nem precisam prezar – os diálogos. Tiro na água. Carinho das Índias, uma homenagem à famosa novela da Gloria Perez, é uma exceção. Muito conhecedores e atentos aos costumes orientais, os produtores não permitiram a falta de nada nos primeiros cinco minutos de quase duas horas de pura sacanagem: atrizes se esforçando pra falarem algumas gírias – are babá, tike he, tchalo e quando havia prazer, falavam o Atchá,  atores errando os nomes dos personagens e a inacreditável dancinha antes de toda copulação. Não preciso nem dizer que depois dos cabalísticos cinco minutos, o figurino foi pro espaço, o cenário seguiu o mesmo caminho, e a comunicação se estabeleceu da maneira tradicional: me come, uh, ah, não para e por aí vai.

Respirei fundo, um gole de cerveja e vamos que vamos para o segundo filminho. O Exorcista pornô. Pronto, fim de assunto. Depois de assistir essa pérola, percebi que é fácil enfrentar o diabo: é só ter disposição e pinto avantajado. A atriz, coitada, com uma péssima maquiagem, se contorcia preguiçosamente na cama e berrava, com a voz grossa, que estava com o capeta no corpo. Chegou o ator vestido com uma batina, sem cueca, claro, e créu. Nada de oração, de água benta, daquele ritual demorado. Ou melhor, eles ficaram numa cena de uns trinta minutos. Queridos e queridas, a atriz, que era o diabo na cama, saiu falando fino como o Anderson Silva. Fiquei imaginando se essa moda pega nos cultos evangélicos.

Acabou meu espaço. Mês que vem comento sobre os livros e os contos. Continuem mandando e-mails para o gomide@embranco.com.br. Sim,sim, ia me esquecendo: impressionante como a estética dos filmes pornôs não permitem uma brochada de vez em quando. Nem no momento da ridícula dancinha nem ao ter que encarar o rei das trevas. E isso me fez lembrar a famosa frase do Vinícius de Moraes: só aqui no Brasil as mulheres estão exigindo pau duro.

Quase um Seu Madruga
Postado por em 4 de agosto de 2011

Beleza, meu sonho dourado se realizou: recebi nada menos que 30 e-mails. Ou seja, o pedido da última coluna não entrou num vácuo constrangedor – o que aconteceu quando implorei pro síndico canalha e amante do general Médici para liberar a multa do atraso básico do condomínio. O que são 2 dias de diferença? O esquecimento não devia ser tratado com tanta dureza. “Thiago, cadê o condomínio? Assim não dá.” Ele nem me deixa argumentar. Acho que seu Agripino (sim, ele tem esse nome escroto ao quadrado!) tira o aparelho do ouvido quando me vê. Ou se concentra na Janis Joplin, mentaliza Woodstock, entra numa onda psicodélica e se concentra na repetição, como se meu sobrenome fosse cadê-o-aluguel-assim-não-dá.  Fico feliz, pelo menos, quando penso que ele poderia ser o Seu Barriga. E eu o Seu Madruga.

Voltando aos e-mails recebidos. A raiva de não dialogar com o síndico foi totalmente diluída quando abri um e-mail que indicava um pagodinho romântico. Que coisa boa, que coisa bela, que coisa fan-tás-ti-ca. O nome da música, Pablo? Pra me fazer Feliz. O nome do compositor em 5 notas? Edson Filé.

Play, aumenta o som e se permite. Se conseguir, dê uma incrementada no visual: um cordãozinho de prata e bonezinho levemente pro lado esquerdo cai bem nos rapazes. Se tiver uns dentinhos tortos e uma cara de caveira do Play Center vai ficar a lata do Ronaldinho Gaúcho. Pra meninas é indicado um shortinho branco, com celular no bolso de trás (toque no vibracall, ok? As mais danadas vão entender o recado!) e se conseguir, haja cafonice!, um daqueles tamancos travestidos de sandálias.

Pohan, o camarada procurou no céu e no mar. Se isto é estar na pior, hein? No mar, ok, entendi, foi atrás de uma sereia. Cafona, mas ok. Ou seria na praia? Será que ele é um wannabe Felipe Dylon?  Cafona, mas ok, o retorno. Agora, que carilha é essa de ir procurar no céu? Será que ele tentou um contato via Chico Xavier? Vai que ele estava apaixonado pela Emilinha Borba, ou pela Dercy Gonçalves, ou pela Marilyn Monroe, ou, sabe-se lá, pelo Renato Russo. Não, claro que não. Ele se embrenhou nas pontes aéreas atrás de um verdadeiro amor. Foi isso. Apesar de acreditar piamente que é quase impossível manter o bom humor – e deixar fluir o mais cândido sentimento – se entupindo de amendoim, barra de cereais e guaraná quente com contadas duas pedrinhas de gelo. Pohan, o máximo que dá é para segurar o peido por 45 minutos.

Próximo e-mail sensacional. Pausa dramática para o interfone.

Take 1: toca uma, duas, três, quatro(…) sete vezes. O aparelho quase sai ao meu encontro.
Take 2: eu atendo.
Take 3: seu Agripino diz cadê-o-aluguel-assim-não-dá.
Take 4: peço mais uma vez para abolir a multa.
Take 5: ele diz que a única abolição que conhece foi a dos escravos.
Take 6: peço que ele leia mais o livro de História da quarta série.
Take 7: lembro que ele gosta do Médici, desço e fico imaginando como seria lindo se ele entendesse que vou pagar a conta, sei da minha dívida, mas que não gostaria de pagar a abusiva multa.
Take 8: pago a conta com multa e tudo que tem direito.
Take 9: estou em frente ao computador. Próximo e-mail sensacional.
Take 10: plateia do Jô Soares quando o entrevistado é um físico famoso na Hungria, descobridor de uma fórmula revolucionária para uma planta nativa da África do Sul. Ou do Congo, tanto faz.

Ahhhhhhhhhhhhhhh, chegou ao fim o meu limite de linhas. Mês que vem tem mais. Se gostou, me repasse os e-mails escrotos, sacanas, bonitinhos, falsamente românticos e por aí vai. Qual o e-mail? gomide@embranco.com.br. E se não gostou, só me resta perguntar: Que que foi, que que foi, que que há?

Literatura de e-mail
Postado por em 7 de julho de 2011

Do outro lado da linha, Lorran, o temível organizador deste site. Ele pede a porra do texto. Eu digo que está quase pronto. Minto. Minto de forma deslavada. É péssimo, eu sei, juro que não sou viciado em mentir. Me recomponho e quase caio na tentação de começar a porra do texto – pronto, assumi a forma do Lorran de falar – da maneira mais cafona: a parede branca do word me dava medo…

Quando pensava um livro para escrever uma porra de texto sobre ele, tocou novamente o telefone. Nessa hora, virou a porra de telefone também. Era o diretor da TV me convocando para uma reunião urgente, urgentíssima, quase mais importante do que a Playboy da Cléo Pires. Pronto, era a melhor desculpa para esquecer a porra do texto e enviar um sms mentiroso argumentando que enviaria-amanhã-de-manhã-sem-falta.

O bom jornalista vai até o final do relógio para enviar a matéria. O bom editor sempre está em cima, cobrando. É mais ou menos essa a relação minha com o Lorran.

Enquanto eu vestia a calça, tentava por o som do James Brown. Será que vão me dar um aumento? Enquanto eu abotoava a camisa, tentava olhar o Twitter. Será que eu vou ser demitido? Enquanto eu amarrava o sapato, via o famoso clipe da tal Banda Mais Bonita da Cidade. Admito que não deu pra ouvir inteira a música, aliás, deu para ouvir a música inteira, o que não deu foi para ver o clipe inteiro. Resolvi dar um pulo no Facebook. E, finalmente, antes de sair de casa, dei uma passada de olho no e-mail.

Charám. Será que charám se escreve assim? Ou seria chamrám? Xamrám? Whatever.

No e-mail estava o porquê de escrever essa coluna mensal, o farol do meu Olímpo, a solução da porra do texto.

Uma enxurrada de e-mails travestidos de literatura, reuniões de fragmentos retirados de livros nunca lidos por inteiro e até poesias creditadas ao Deleuze – que até onde eu sei, nunca escreveu um verso sequer.  Charám, meu caro Watson, é por aí que devo caminhar. Vou discutir esses e-mails, tentar fazer uma análise deles. E, claro, conto com a sua ajuda. Recebeu aquele e-mail escroto da tia religiosa? Envie para mim. Recebeu o texto filosófico-de-botequim da amiga Hare-Hare? Envie pra mim. Recebeu o clipe com uma mensagem barata e um pagodinho safado? Envie pra mim. Recebeu… envie pra mim.

Ministério dos Bons Costumes e da puta falta de sacanagem adverte: aceitamos conteúdo proibido para menores de 18 anos.

Então é isso. Mês que vem, prometo já mostrar o trabalho, já que esta é a segunda forma mais cafona de se escrever um texto.

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