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Bravura Indômita, de Charles Portis
Postado por em 17 de fevereiro de 2012
Bravura Indômita (True Grit)
Charles Portis

ISBN: 9788579620430
Editora: Alfaguara
Tradutor: Cassio de Arantes Leite
Ano de publicação: 2011
Páginas: 192
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Um livro que me tirou das mesmices de minhas leituras.

Eu sei, virou filme, e há mais de um ano, mas só agora tive a chance de ler este livro (que estava igualmente há um ano em minha estante). Me mostrou o quanto eu ainda deveria me aprofundar no gênero western de literatura, campo este ainda desconhecido por mim e por muitos brasileiros.

Bravura Indômita começa com a morte de um bom sujeito, pai de família, que teve a infelicidade de tentar segurar um bêbado enfurecido – Tom Chaney – e acaba assassinado por este. Assim que sabe da morte de seu pai, Mattie Ross decide vingá-lo (afinal, o assassino trabalhava para sua família!) e, assim, parte para a cidade de Fort Smith, no Arkansas, para seguir o rastro do assassino e cuidar do traslado do corpo. Apesar de ser menina e ter apenas quatorze anos, Mattie não abaixa a cabeça pra ninguém: consegue revender os pôneis recém comprados por seu recém falecido pai e convence Rooster Cogburn – um fora-da-lei-convertido-em-US-Marshall – a investigar Chaneye ajudá-la a encontrá-lo (claro, mediante pagamento). Só que no meio do caminho aparece o texano LaBoeuf, com uma proposta tentadora e, assim, os três saem pelo deserto de Oklahoma atrás do rastro de Tom Chaney e outros bandidos.

Mattie Ross é uma senhora protagonista! Cabeça-dura, teimosa, certinha e até um pouco mimada, só aceita as coisas do jeito dela. E tá certo, afinal, é ela quem está pagando, né? Mas é também uma garota valente, dura na queda, sem frescuras e muito mais “macho” que muito marmanjo com pistola. O trio é completo assim. Como a narrativa é contada sob o ponto de vista de Mattie, apesar do assunto “pesado” das mortes e afins, a coisa fica um pouco suavizada, como quando ela não se avexa em dividir sua inocência com os leitores em achar que as cobras menores tinham menos veneno. Tudo é contado como se você e ela estivessem numa fogueira, trocando histórias sobre o passado.

O que Charles Portis fez com essa narrativa é interessantíssimo, transcrevendo a linguagem oral (inclusive suas gírias e vícios de linguagem da época) para a literatura, escrevendo sobre uma época que ele não viveu, mas, ainda assim, muito fresca na cultura norte-americana. Ele soube exatamente quando acelerar os fatos e quando “se perder” em divagações, como se realmente Mattie estivesse na sua frente contando o causo. O autor também se preocupou em retratar não apenas os costumes de vestimenta e comida da época, mas principalmente a sensação de perspectiva de vida, os valores que eram apreciados e o tipo de coisa que as pessoas tinham que fazer para sobreviver naquele Meio Oeste, perdido entre o deserto e a fronteira. E Charles fez tudo isso sem ser bruto, mas, ainda assim, mostrando a bravura de sua protagonista. Difícil criar uma protagonista valente sem ser machona, mas Mattie é “uma mulher com cérebro, uma língua afiada, uma manga presa com alfinete.”

Vale a leitura se você quer ler algo novo.

Viva a classe média
Postado por em 15 de fevereiro de 2012

Risos. Muitos risos. Cof, cof, cof. Alguns segundos para me recompor. Vamos lá. Durante as minhas férias decidi ficar off-line, desconectar dos viciantes gadgets. O melhor da experiência foi a sensação de descobrimento quando acendi meu computador e chequei os meus e-mails e minhas mensagens no Facebook. Olha só que curioso: o assunto na tevê, no começo desse ano, foi o reality “Mulheres ricas”, uma clara inspiração no “The real housewives”.

Recebi dos meus leitores amigos, sem hipérbole, uma dúzia de links no Youtube. Antes de assistir, fui pesquisar quem eram as protagonistas. Uma vergonha eu não saber absolutamente nada de nenhuma delas, com exceção, óbvio, da Narcisa. E o Google e o Wikipedia não me deixam mentir: a biografia de duas delas é do mesmo tamanho que o do Mussumzinho. Papo de cinco ou seis frases, e olhe lá.

Enquanto me divertia com os vídeos, me perguntava: será que elas não conhecem alguém que avise da pagação de mico? Sei lá, um puxa saco mais atrevido que dê um toque ou uma lúcida amiga das antigas que deixe escapar a verdadeira opinião. Mas olhando bem, érrr, acho que as rêmoras já foram melhores. Um lado positivo pro estudo antropológico: enxergar e analisar aqueles que cercam as protagonistas.

E nesse quesito, um me chamou bastante atenção. O nome dele é Duda Martins, mas poderia facilmente ser chamado de Crô, o personagem do Marcelo Serrado em Fina Estampa. O Duda, que é empregado da Val Marchiori, sabe-se lá fazendo o quê, desempenha como poucos o papel de puxa-saco: elogia de forma exacerbada, solta as frangas nos comentários sobre a chefe, chega a chorar de emoção por dividir o mesmo espaço da poderosa loura. “Você está divina”, “Ser Val Marchiori é ser Val Marchiori” e “Rainha do Nilo, Nerfetiti da Chanel” (ok, essa ainda não rolou, mas tá no processo).

Por falar na Val, será que ela aprendeu inglês com o Joel Santana? Rélou, pipóu, gud dei, pode to be. E português, com quem foi? Tiririca? Nos filmes do Mazzaropi? Depois de assistir alguns episódios, agradeci aos céus por ela beber champanhe todo dia. Se a socialite já não tem muitos neurônios bebendo, imagina se ela preferisse maconha.

 Outra que andei incluindo em minhas preces foi a Brunete Fracarolli. Rezei pra que caminhe longe dela dores de barriga, caganeiras e derivados. Ela já passou, com folga, dos sessenta anos, mas acredita, e ai de quem discorde, que semana que vem é a festa do aniversário de 15. É capaz até de querer fazer mais uma plástica. E aí, meus queridos, que está o problema. A senhorita tem tanta plástica, mas tanta plástica, que desconfio seriamente que num peido de altos decibéis uma das bochechas voa longe. Ou as sobrancelhas. Ou tudo junto e misturado.

Se até em faculdades e empresas públicas há vagas para cotistas, por que seria diferente no reality? Palmas pra a inclusão. Débora Rodrigues, ex-militante do MST, tá mostrando que aprendeu bem com alguns líderes do movimento. Tá só no bem bom. Pra quem não conhece, Débora é a Sula Miranda dos abonados: ama caminhões e corre na Truck. Poxa, um alívio que não desandou a cantar.  De qualquer fome, irei rezar pra isso também.

Eu não sabia que a Narcisa é advogada. Não é à toa que muitas faculdades de direito estão sendo fechadas. Agora um exercício de imaginação: visualize a Narcisa defendendo uma causa sua. Você entra com chances mínimas, é o mesmo que concorrer à presidência da república pelo PSOL.  Caso você tenha conseguido sem problemas, vamos pro próximo estágio. Tente conceber a Narcisa ensinado revolução francesa pros filhos.

- Ai, que loucura, a guilhotina estava solta. Era cabeça pra tudo que é lado. Uh, Robespierre. Ai, que absurdo.

Por fim, vale dar nota 10 pra Band. Conseguiu o que queria: provocar e alavancar a audiência. E, sem querer, conseguiu também que valorizássemos ainda mais o crescimento da classe C. Vivam os conflitos da classe média.

Um Homem de Sorte, de Nicholas Sparks
Postado por em 24 de janeiro de 2012
Um Homem de Sorte (The Lucky One)
Nicholas Sparks

ISBN: 9788563219138
Editora: Novo Conceito
Tradutor: Marcely de Marco Martins Dantas
Ano de publicação: 2011
Páginas: 349
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Para quem nunca leu um livro de Nicholas Sparks, ele é apenas um autor de histórias de amor. Para mim, e acredito que para boa parte de seus leitores, ele vai muito além. Claro, há romance em todas as obras do autor. Geralmente são o centro da trama. Ainda assim, seus livros não são meros romances água com açúcar, como alguns julgam (geralmente quem não os leu). Sparks é drama puro. Mais que isso, seus livros são simplesmente sobre relacionamentos humanos, e o amor entre um homem e uma mulher é apenas uma das facetas que ele retrata no texto.

Assim foi com os seus romances mais conhecidos, Querido John e A Última Música. Ainda que tragam histórias de amor, estes livros trazem muitos outros conflitos que ultrapassam o óbvio ao gênero. Em ambas as tramas, Sparks reproduz problemas familiares que são um reflexo de muitas casas, e talvez esta seja a razão do sucesso de seus livros. Tanto em a A Última Música quanto em Querido John, os protagonistas enfrentam problemas com os pais enquanto estão em busca de si mesmos. Nada mais são que jovens procurando seu lugar no mundo. Com Um Homem de Sorte, último lançamento do autor no Brasil, não é diferente. O livro é tão bom quanto os citados anteriormente. Há romance transbordando das páginas, e ainda assim Sparks não transforma a obra em um simples livro de mulherzinha. Ele consegue facilmente segurar as pontas entre os gêneros e prender o leitor do começo ao fim, alternando as tramas paralelas e os conflitos que todos os personagens enfrentam, assim como a narrativa, dividida entre os três protagonistas. É um romance de primeira linha.

Claro, a trama de Um Homem de Sorte pode soar boba durante a leitura da sinopse. Um fuzileiro americano encontra a foto de uma mulher no chão em plena batalha durante a Guerra do Iraque. Ele procura o dono entre seus companheiros de pelotão, mas não encontra ninguém. Desta forma, passa a guardar a imagem junto a si, em sua carteira. A partir dai, acredita que ela vira um amuleto, protegendo-o em diversos momentos da guerra. Cinco anos depois, o tal fuzileiro, Logan, volta aos EUA. Ele atravessa o país para encontrar a mulher desconhecida da foto, acreditando que ela o salvara e está destinada a ele.

Sim, a trama parece boba a princípio. Entretanto, nas mãos do mestre Nicholas Sparks, ela funciona muito bem, como provavelmente não funcionaria com outro escritor. Sparks desenvolve todos os personagens desde o começo e é prazerosa a forma como tudo se desenrola conseqüentemente. A partir do momento que Logan finalmente encontra Beth, Sparks narra o dia-a-dia de seu novo trabalho junto a ela no canil da avó Nana, um retrato do cotidiano que o autor faz de forma interessante, algo que só ele consegue tão brilhantemente. Acompanhamos o relacionamento de Logan com o filho de Beth, Ben, a quem ele se apega muito fácil, e obviamente com a sua mãe. Então entra Clayton, o ex-marido e pai de Ben, que está incomodado com o homem estranho que se infiltrou na vida de sua antiga família. Sparks dá espaço ainda para os conflitos entre Ben, que não gosta de conviver com o pai, e o próprio Clayton, que resolve atrapalhar todos os novos relacionamentos que sua ex-mulher consegue. Já no final do livro, o autor pega o leitor de surpresa com uma cena final rápida, mas excelente, e ainda prega uma peça no epílogo, enganando direitinho. Tudo satisfatório. O único defeito do livro talvez seja a capa brega e sem graça que ele recebeu da Novo Conceito, o que não é nenhuma novidade, considerando o catálogo da editora. Deveriam ter reproduzido as capas americanas, que são bem melhores.

Sparks, mais uma vez, impressiona e faz um livro não só bom, mas prazeroso e brilhantemente simples de se ler. É Sparks, este é seu estilo. Um Homem de Sorte é um livro sobre família, conflitos e amor. Sobretudo, um livro destinado a leitores que querem uma trama pueril, bem desenvolvida e com bons personagens. Tem a cara do verão, uma ótima pedida para se ler na praia, com os pés na areia. O filme baseado na obra deve sair em abril e, de acordo com o trailer, parece ser fiel ao original. Vamos torcer para que a produção tenha o mesmo cuidado com a trama que o mestre Sparks teve em escrevê-la, e não repita o fisco do filme Querido John.

Em Chamas, de Suzanne Collins
Postado por em 24 de janeiro de 2012
Em Chamas (Catching Fire)
Suzanne Collins

ISBN: 9788579800641
Editora: Rocco
Tradutor: Alexandre D’elia
Ano de publicação: 2011
Páginas: 416
Classificação: 5/5
Preço de Catálogo: R$48,00
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Se Jogos Vorazes teve um começo lento, e demorou até tornar-se um livro viciante, o mesmo não acontece com sua seqüência, Em Chamas. O segundo volume da série apresenta um ritmo intrigante do começo ao fim, transbordando ação e suspense em quantidade suficiente para fazer o leitor virar as páginas sem parar. É um livro ainda melhor e mais surpreendente que o primeiro, algo incomum em séries juvenis, que geralmente caem na mesmice no segundo volume, a prova de ferro do talento do escritor em manter uma trama.

Em Chamas traz os acontecimentos imediatos ao primeiro volume. Após escaparem vivos dos Jogos graças a uma trapaça, Katniss e Peeta agora enfrentam a fúria do presidente Snow, que acredita que o ato desencadeará o início de uma revolução por toda Panem. Para ele, a estratégia utilizada indicará aos distritos que o poder da Capital é limitado e um golpe pode ser bem sucedido. Snow aparece em pessoa para ameaçar Katniss e convencê-la a lutar contra isso, mostrando a população que um ato de rebeldia seria perda de tempo. Ainda assim, Katniss está perdida, sem saber o que fazer, já que não decide se obedece e protege sua família ou ajuda a criar uma rebelião, tornando-se líder dela, e livrando todos dos futuros Jogos. Ela não espera, no entanto, que a Capital está tramando algo maior contra eles, e que ela e Peeta serão obrigados a lutar novamente.

Como se vê, a trama da série caminha para um destino ainda mais político, abordando guerras e revoluções, que deve se intensificar no terceiro volume, como o fim de Em Chamas mostra. No segundo livro, no entanto, ainda não chegamos lá – estamos apenas a caminho. Toda a trama envolta nisso torna o livro tenso, denso e agonizante, sensações que acabam por prender o leitor até o fim de maneira eficiente. O final, aliás, é intrigante, e o leitor certamente irá querer correr para ler o terceiro e derradeiro livro.

Quando Katniss caminha para o seu segundo “Jogos”, já na metade de Em Chamas, tudo acontece muito rápido, e ao chegar ao final, fica a gostosa impressão de que o livro precisava ser maior, principalmente para cobrir toda a ação da arena. Ele apresenta novos personagens, que mudam de caráter ao longo da narrativa, e intensifica o triangulo amoroso central, sem tornar-se meloso ou cansativo.

O segundo volume de Jogos Vorazes é a prova que a série é uma excelente opção de leitura, tanto pelo divertimento quanto pelas mensagens e críticas políticas que podem ser lidas nas entrelinhas. É a prova que Suzanne Collins veio para ficar, e que o sucesso de seu primeiro livro não é apenas sorte ou marketing. “Jogos” é de fato uma das melhores e mais viciantes séries lançadas nos últimos anos.

A Farsa, de Christopher Reich
Postado por em 4 de janeiro de 2012
A Farsa (Rules of Deception)
Christopher Reich

ISBN: 9788599296417
Editora: Arqueiro
Tradutor: Fernanda Abreu
Ano de publicação: 2009
Páginas: 336
Classificação: 3/5
Preço de Catálogo: R$29,90
Onde comprar:
SubmarinoSaraiva | Cultura

Todo apaixonado por literatura que possui, por consequência, uma certa “solidariedade literária”, sabe qual é o prazer de se dividir uma experiência lida, vivida através das palavras. Incentivar as pessoas das quais eu gosto a ler mais e desbravar horizontes cada vez mais inusitados, ao lhes emprestar um exemplar que guardamos com carinho na estante – no meu caso, dentro do guarda-roupa – me deixa abobadamente orgulhoso, e qual foi a minha surpresa ao receber um empréstimo em retorno da minha querida prima Luana Aquino. Foi minha vez de reviver a experiência dela sob minha perspectiva, na trama de A Farsa, do norte-americano Christopher Reich.

Grande parte da aventura de espionagem tem lugar na Suíça, país onde o autor trabalhou como banqueiro por certo período, adquirindo familiaridade e riqueza nos detalhes do percurso. Há três personagens centrais na narrativa de Reich: Jonathan Ransom, um médico que atua em localidades precárias ao redor do mundo e protagonista deste thriller; Emma, sua esposa que, logo no início do livro, despenca em um desfiladeiro nas geleiras e morre drasticamente; e o detetive Marcus Von Daniken, um homem do Serviço Secreto que está atrás do principal suspeito de um atentado terrorista iminente: o próprio Jonathan.

Atordoado com a morte da mulher, Jonathan descobre uma encomenda endereçada a Emma cheia de dinheiro, identidade falsa e muitos mistérios sem resposta. É a partir daí que Ransom embarca em uma jornada atrás da verdadeira identidade – se é que existiria uma – da falecida e amada esposa e, ao mesmo tempo, vira alvo de uma caçada mortal; ao contrário da realidade, quem quer que estivesse por trás da verdade e da relação de Emma aos atentados planejados na Suíça pensa que Jonathan sabe demais e precisa ser silenciado.

É inevitável ao longo da trama não comparar a obra de Reich aos livros de Dan Brown. Semelhanças de estilo cuja narrativa transcorre como cenas de um longa metragem. Contudo, saudade foi o que mais me consumiu pelas páginas de A Farsa. “Não é Dan Brown”, insistia meu pensar. Existe até um assassino intitulado “o Fantasma”, referência direta ao fanático religioso que é personagem de Brown em O Código Da Vinci (2003).

A trama agrada aos fãs de espionagem – quem vos escreve inclui-se na lista – e de conspirações, mas confesso ter me arrastado pelos capítulos principalmente no começo, por ser extremamente difícil ligar todos os personagens até a página 100. Contudo, as revelações finais surpreendem os desavisados e deixa o caminho livre para as continuações: A Vingança (Rules of Betrayal, 2009) e A Traição (Rules of Betrayal, 2011).

Meus agradecimentos pela experiência, Lu!

Pergunte ao Draccon – Respostas
Postado por em 3 de janeiro de 2012
Lodir Negrini: Desde que começou a escrita de Dragões de Éter até hoje, quais as maiores dificuldades que você encontrou?

O processo de pesquisa é comumente exaustivo. Para um escritor profissional, a parte da escrita em si não é o mais difícil, mas sim a pesquisa, o embasamento e a estrutura ao redor da história que ele se propõe a montar. Com Dragões de Éter, como foram anos entre os rabiscos, a escrita em si e a publicação, houve bastante tempo para ser compreendido que história era aquela e como deveria ser contada.Já relativo às dificuldades fora do processo de criação, a maior sem dúvida envolveu a publicação. Ser um escritor de literatura fantástica, brasileiro e estreante envolve muita coisa em uma única frase. Foi preciso enfrentar uma série de resistências, além da necessidade de se conquistar a confiança do leitor brasileiro. Hoje o leitor ao menos de literatura fantástica já confia em autores nacionais, e o campo está melhor nesse sentido.

Contudo, a luta é e sempre será muito difícil, como tem de ser realmente,até para saber aquele que merece. Sem a dificuldade, não há mérito. É preciso sangrar para merecer realmente.

Thaís Marques: Como é o seu processo criativo? Como consegue inspiração e ideias para uma nova história?

O processo é assim: escrevia em Times New Roman, 12, espaço duplo. Nessa formatação possuía a meta de 10 páginas por dia durante 5 dias da semana. Se falhana nesse processo em algum dos dias úteis, precisava dar adeus a um dos dias de fim de semana. Foi assim que fiz um livro por ano. Estudava cinema de manhã, dormia de tarde, dava aulas de artes marciais de noite e escrevia de madrugada.

Hoje, contudo, depois demuita luta para viver de direitos autorais, consigo um pouco mais de tempo para escrever. Em compensação, os compromissos profissionais aumentaram muito, sem contar as viagens pelo país. Isso faz com que a meta de escrita de 5 dias da semana passe a nem sempre ser viável. Logo, agora escrevo todo dia, sempre que possível, inclusive sábados e domingos, sempre em horários envolvendo 11 da noite e 4 da manhã.

A inspiração para criação de plots pode vir de sonhos, de frases, de situações nas ruas, de qualquer lugar. Já para o processo de escrita em si não acredito em inspiração, mas em disciplina. Escrever profissionalmente é um trabalho como qualquer outro, a vantagem é apenas que você pode fazer o seu horário, mas o ponto tem de ser batido diariamente.

Rodrigo Baptista: Você acha que uma história em formato livro precisa seguir a estrutura de um roteiro de cinema? Por exemplo, vejo muitos livros em que tal estrutura é bastante evidente, seguindo a risca a tão falada “jornada do heroi”. Mas outras obras parecem não obedecer. Tal fórmula é necessária? Pode possuir maior aceitação? Se um livro X for “diferente”, é mais passível de possíveis fracassos?

Não é necessária, mas diminui os riscos de fracasso comercial. Se você encarar esses elementos como uma “fórmula”, a tendência de não conseguir um bom resultado é grande. Se você a encarar como uma “estrutura”, a coisa já muda. Nada substitui talento. A estrutura, contudo, faz com que o talentoso saiba o que fazer com o que possui.

Para se contar uma história, independente do veículo, a estrutura aristotélica, ou de Syd Field, ou de Robert McKee, ou seja lá qual for o nome que queira se dar, será a mesma, ainda que com nomes diferentes. Para o escritor profissional, essas estruturas são como as bases de um lutador de karatê. Existem lutadores incríveis e diferentes, mas todos eles aprendem sobre uma mesma base. O escritor pode fazer de tudo, mas o profissional que compreende o que está fazendo não se perde ao longo do processo, porque sabe para onde está indo.

Para o escritor amador, todavia, é aconselhável que ele inicialmente escreva sem se preocupar simplesmente. Encontre o que está em seu coração. Ele vai cometer erros que todos cometem no início, assim como todo bebê cai antes de aprender a andar. Depois que tomar gosto pela escrita é que ele deve começar a estudar essas estruturas e descobrir um mundo novo. O processo lembra um candidato a cineasta: no início ele deve simplesmente pegar uma câmera, juntar amigos e figurinos engraçados e sair filmando cenas que depois todos se divirtam. Mais para frente ele pode entrar na faculdade de cinema e descobrir como funciona o trabalho de fotografia, do técnico de som, do editor. Mas o gosto pela magia do cinema já estará dentro dele.

Diego Alves: Raphael a literatura fantástica no brasil está crescendo, mas existem, como sempre acontece, muita coisa mal produzida sendo feita para tentar abocanhar esse mercado, você acha que isso só nos faz perder?

Não, não faz. Explico: tem muita coisa ruim sendo produzida lá fora também, é reflexo de um mercado em crescimento mesmo. É que para nós aqui,  a coisa já chega um pouco filtrada. Além do mais, é um mercado tão difícil, que o que não tiver qualidade suficiente para se sustentar, não chegará nem mesmo nas livrarias. E, se chegar, não se sustentará.

Lodir Negrini: Quais suas influências na literatura?

Na infância, Monteiro Lobato, fábulas clássicas e a coleção Vaga-Lume.

Na adolescência, Stephen King, Neil Gaiman, Robert Howard, JRR Tolkien, além dos quadrinistas Alan Moore e Frank Miller.

Já mais velho, George RR Martin e Bernard Cornwell.

Diego Alves: Você treina artes marciais, eu também, e acredito na energia chamada chi, ou ki, tanto faz. O que você acredita e não acredita a respeito desse assunto?

É simples: acredito em tudo o que consegui vivenciar ou presenciar. Não creio (ainda) no que não, embora não duvide. Essa energia Chi por exemplo, não é uma crença, é um fato. Já saltei alturas incríveis e parti tábuas de madeira antes de aterrissar ou quebrei uma pilha de dez telha empilhadas com as mãos. Isso não é possível sem a manipulação dessa energia.

Além disso, da mesma maneira como é possível se utilizar de energias como essa de maneira destrutiva, é possível se utilizar de maneira curativa ou criativa. O próprio slogan de Dragões de Éter fala sobre uma força dentro do espírito humano que pode ser moldada; uma força capaz de feitos extraordinarios em dimensões que o mundo material não pode alcançar.

Lodir Negrini: Teremos Espíritos de Gelo no Brasil?

Ele será vendido um ano exclusivamente no Submarino, através desse link.

Mas no primeiro semestre desse ano teremos um novo épico urbano inédito nas livrarias. Espero que apreciem igualmente.

 

Novos ídolos
Postado por em 3 de janeiro de 2012

Olha, eu preciso me confessar: desde moleque adoro um programa trash. Só pra dar um exemplo. Enquanto meus amiguinhos assistiam a Xuxa, eu perdia horas e horas tentando decorar “tuiuiu iu iu, sou curumim iê iê, tuiuiu iu iu, sou curumã arauê”. Acho que sou uma das poucas pessoas que sofreram bullying por gostar da Mara Maravilha. Até hoje, meus amigos, alguns pais de família e tudo, me chamam de curumim iê iê.

Bem mais tarde, ainda seguindo esse maldito gosto pelo estranho, pelo bizarro, por ver até onde o ser humano vai para alcançar alguns minutos de fama, conheci o Jonas Santana. Lembro bem da situação, sente só a barra: domingo, madrugada pesada, tipo umas 2 da manhã, eu terminando um trabalho sobre a importância do Deleuze pra comunicação e precisando acordar cedo pra tentar conciliar fim de faculdade e estágio-com-toda-pinta-de-trabalho-mas-com-salário-de-estágio. Pois bem, acendo a tevê na Band e lá estava ele, Jonas Santana, com um molejo corporal que proporcionava inveja numa lombriga, não falando lé com cré e pedindo close nas dançarinas semivestidas. Tudo isso em um estúdio improvisado numa quadra de esporte de um clube no subúrbio do Rio de Janeiro. Pronto, mais um trash me conquistava.

Infelizmente essa preciosidade acabou. Depois disso, Jonas tentou ser vereador, tomou uma lavada, nem as dançarinas votaram nele, não entrou nem pra suplente e sei lá onde foi parar.

Nesse mês recebi uma indicação de programa da leitora Mariana Lopes. Antes de qualquer comentário, veja. Mas veja com atenção.

Eu desconfio seriamente que o terceiro segredo de Fátima passa por esse programa.

Meu amigo Saulo Machado, outro amante do trash, me disse que a repórter, Cida Moraes, é uma ex-BBB. O Wikipedia me disse que o apresentador, Fernando Reski, é ator. E a Rogéria é a Rogéria, ninguém precisou me dizer.

Pois bem, quem será que escreveu o roteiro? Será que alguém escreveu o roteiro? Não, lógico que não tem roteiro. Nem editor. Nem diretor. Arrisco a dizer que nem câmera.

O Reski, em um improviso genial, começa a fala contido, e aí parece que recebe uma pomba gira e vai se soltando, se soltando, se soltando, a ponto de anunciar a entrevista (com a Rogéria) com essa pérola: é humana, é companheira, é colega. Sabe até de futebol, coisa que eu não sei. Parabéns (não aguento de rir quando ele levanta a mão como se estivesse brindando uma divindade grega). Parabéns? Oi? Parabéns por saber de futebol?

É uma escala de valores, no mínimo, curiosa. Imagina se ele fosse chamar uma entrevista com o Pelé. Ou com o Casagrande. Pensando melhor, a Rogéria deve saber mais de futebol que o Casagrande. Vamos tocar o barco.

Antes da patética entrevista aparece um take da Rogéria cantando. Dia desses li que a Vanusa está muito triste por esquecer as letras e ser zoada na internet. Ô, Vanusa, quando tiver na merda, depressiva, olha a Rogéria. Vai te dar um ânimo danado, é capaz até de querer correr no parque, na praia, gravar um cd só de hinos e tomar quinze activias em homenagem ao mundo. Será que esse take era o melhor momento do show? Não é possível.

Alguém fez de propósito. Só pode. Isso é papel de espírito de porco.

Convenhamos: o trabalho do editor não deve ser fácil. Esse coitado deve pensar em se demitir todo dia. Se ele recortar só o que a repórter fala de interessante, tcharam, só vai sobrar o Gente Carioca do início. Convenhamos, parte dois: o que significa “segura essa manga e chupa esse quadrado”? Convenhamos, parte três: quando a entrevistada erra o nome do programa é indicado que se edite. Convenhamos, parte quatro: a Rogéria devia olhar o microfone antes de falar qualquer merda. Convenhamos, parte final: se existe editor nessa bagaça, e se ele se demitir, é capaz de não conseguir trabalho nem como vendedor de curió.

A partir de hoje, esse programa será meu xodó, meu tarja preta contra o mau humor universal. E prometo, aproveitando o momento de confissão, que estou torcendo que a Cida entreviste o Sabbá (não conhece? Youtube já!) e o Toninho do Diabo. E fico até imaginando o diálogo entre ela e o autointitulado filho do Satanás.

- Ai, meu Deus, estamos aqui no camarim do Toninho do Diabo, um inferno, ui, tá pegando fogo.

- É pegadinha do Malandro?

- É… não… é do Gente Carioca.

- Do Silvio Santos, né? Eu sei que é você, Ivo Holanda.

Chega de bobagem. Mês que vem tem mais crônica em cima daquilo que vocês enviam. Não sabe o e-mail? Anote: gomide@embranco.com.br.

Notas pós-texto: vale pular a entrevista da Rogéria e ir logo para 9:51, que você verá o bate-papo entre nossa heroína e a Fujica de Haliday(?).

Sobre os novos livros brasileiros
Postado por em 3 de janeiro de 2012

Não venho aqui para discutir os méritos de ninguém, nem acho que devemos comparar seja quem for com quem quer que seja. Mas vivemos – no caso, eu – aqui, dissertando sobre todos os autores para jovens adultos de modo que sempre tentamos aclamar aqueles que estão em voga e/ou nos agradam mais. Não esqueço que existem outros, uma infinidade de autores que só aumenta a cada dia, mas como posso querer falar de alguém que não conheço? É o tipo de coisa que aplico em tudo na minha vida, não querendo parecer boa moça.

Sou daquele tipo que acredita que você precisa, sim, experimentar algo para dizer que não gosta. Do tipo que lê um livro/vê um filme nem que seja só para poder falar que é um lixo. Eu gosto de ter minha própria opinião sobre quase tudo e, nem por isso, acho que estou sempre certa. O que acontece é que preciso de bons argumentos para poder sustentar qualquer que seja o meu ponto de vista.

Dito isto, assumo: muito pouco do que leio/tenho lido é proveniente da terra brasilis Não é preconceito, só se for um bem mascarado, apenas falta de interesse. Uns meses atrás, vi tanta gente falando de alguns livros brasileiros que até me interessei por eles, mas quando entro na livraria e vejo algum que eu queria há tempos e com um preço menor do que o outro, é meio difícil dizer não. Foi assim com Todas as Estrelas do Céu (Enderson Rafael): li dezenas de resenhas, muita coisa boa… No dia que o vi na Saraiva fiquei doida, mas o preço estava um tanto quanto salgado e acabei trocando-o por um outro (que agora não me recordo qual).

E, parando para pensar e contando os livros da minha estante, são pouquíssimos os títulos brasileiros. Dos meus quase cem livros, divididos em duas estantes, apenas oito são brasileiros (considerando apenas os títulos “não-técnicos” ou seja lá o nome que eles recebem). Um deles, ainda por cima, é emprestado. O que “me incomoda” é que todos eles são realmente bons e, ainda assim, acabam ficando “desmerecidos” entre tantos ingleses, norte-americanos e de outras nacionalidades.

Sábado à Noite, o tal livro emprestado, foi uma vida até ser lido. Sempre quis – e ainda quero – compra-lo, já cheguei até a ganhar um marcador do livro em uma promoção via twitter feita pela Babi Dewet (a autora). Minha prima, por sua vez, comprou seu exemplar na Bienal de São Paulo, no ano passado, e é essa a cópia que continua em meu poder, desde abril. A leitura é altamente agradável, mesmo para mim que prefiro descrições à diálogos e a história não foge da nossa realidade. Porque tá aí uma coisa que me irrita: brasileiro que decide inventar uma história totalmente irreal para o que vivemos. Nosso ensino médio não é como o norte-americano, nossa cultura – querendo ou não – também é bastante diferente. Alguns livros, ouso dizer, conseguem transformar a história mais banal em uma suposta ficção científica e daí… *onomatopeia que indica falha* Não sou obrigada!

Outro dia, por um momento do acaso, recebi pelo correio uma cópia de Mundo de Vidro (Maurício Gomyde). Por conta da faculdade, acabei enrolando para lê-lo. Merece uma pequena introdução: sabe como cada pessoa tem um ritual para decidir se um livro merece ou não ser lido? Por exemplo, tenho uma amiga que diz que o livro só vale à pena se te conquistar nas seis primeira linhas. Outra, diz que lê a última oração. Eu gosto de dedicatórias/prefácios/introduções. Quando o livro não tem, me atenho à primeira página. Mundo de Vidro fugiu um pouco à regra: o prefácio é chato. Muito chato. Extremamente. E quase me fez desistir do livro. Sorte minha ter sido persistente. O autor, assim como eu, vive em Brasília e, embora a cidade do livro não tenha nome, na minha cabeça ela se passou em Brasília, com o metrô, as entrequadras e todo o resto. Foi lindo, lido e devorado. Amei e agora habita minha prateleira de favoritos (a que fica bem do lado da cama).

Também nos favoritos, figura um livro um pouco polêmico: Mil e uma noites de silêncio (Mayra Dias Gomes). Depois de Fugalaça, Mayra ficcionou tudo e construiu uma história envolvente e, oposta aos outros dois que são extremamente leves, densa. Para mim, foi aquele tipo de leitura que você não consegue ler e, ao mesmo tempo, não consegue parar. Posso ter lá todos os meus problemas com o livro/a autora/o mundo, mas não posso mentir no quanto aprecio o livro desde as ilustrações até o ponto final.

Vêem como é? Até hoje, dos livros brasileiros que comprei/ganhei/peguei emprestado, não me arrependo de um. E olha que nem sempre fico por aí buscando indicações e resenhas positivas (visto que não acredito muito nas resenhas de livros brasileiros porque tenho a impressão de que os blogueiros têm medo de “ofender” o autor, e eu sou um pouquinho mais destemida – já até saí na briga com uma autora citada aí por conta disso).

Mas se alguém quiser me indicar/presentear, aceito de bom grado e dou minha opinião mais sincera. Fiquem à vontade!

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